«Marcel, the shell with shoes on» & «Puss in boots: the last wish»

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023


Hoje trago mais duas opiniões de filmes nomeados para os Óscares. Desta vez, venho falar de dois filmes de animação bem diferentes mas ambos bastante recomendáveis.




O filme segue a história de Marcel, uma pequena concha que vive com Connie, a sua avó. Porém, elas nem sempre viveram sozinhas, uma vez que ambas faziam parte de uma alargada comunidade de conchas. Contudo, um misterioso acontecimento fez com que apenas estes dois sobreviventes resistissem. Mas tudo muda quando um jornalista descobre a triste história de Marcel e a divulga por todo o mundo, dando à pequena concha a esperança de reencontrar a sua família.


Marcel, a pequena concha, não é uma novata no ecrã. Pelos vistos, tudo começou em 2010 através de umas curtas no Youtube. No entanto, eu desconhecia estas curtas e parti para este filme com pouca noção do que me esperava. Estava curiosa (e céptica) para descobrir se o filme conseguiria ter história para uma hora e meia de duração já que a premissa é tão simples. Felizmente, o filme revelou-se uma agradável surpresa.
Marcel, the shell with shoes on funciona como um pseudo-documentário e apoia-se, sobretudo, nas divagações de Marcel e nas suas interacções com a avó e com o realizador humano do filme. Basicamente, só as conchas é que são animadas e todos os cenários/outras personagens são reais, o que torna o filme invulgar e dotado de um encanto próprio.
É um filme sobre perda, o valor da família/comunidade e a importância de arriscar na vida, de não ter medo de agir. Mensagens importantes contadas de uma forma doce e divertida ao mesmo tempo, com um protagonista ternurento, com uma voz extremamente adorável, que me conquistou.  🌟🌟🌟🌟



O ousado fora da lei Gato das Botas descobre que a sua paixão pelo perigo e o desrespeito pela segurança, têm consequências. Já gastou oito das suas nove vidas e recuperá-las fará com que tenha de embarcar na maior aventura de sempre através da Floresta Negra para encontrar a mítica Estrela dos Desejos. 


O Gato das Botas: o último desejo é o sexto filme no universo do Shrek e o segundo filme do Gato das Botas. Na altura do seu lançamento, eu vi e gostei do primeiro e segundo filmes do Shrek mas nunca dei muita importância e continuidade a este franchise. Como tal, confesso que este era um filme no qual não estava interessada até começar a ouvir críticas positivas. Como foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação, lá me decidi a dar-lhe uma oportunidade e não me arrependo. Apesar deste filme pertencer a uma saga, é um filme que vale por si só e não é necessário termos visto nenhum dos filmes anteriores para apreciarmos este.
É um filme de aventura, leve e divertido, com um bom ritmo e que vai agradar tanto a adultos como a crianças. É uma animação repleta de cores vibrantes e texturas ricas, que impressiona pelo modo como mistura animação 2D e 3D de forma dinâmica e com bastante atenção aos detalhes. É também um filme inofensivo e familiar, que entretém e que aborda temáticas mais pesadas tais como, mortalidade, ansiedade e solidão de uma forma até bastante madura.
A melhor personagem é o novo companheiro do Gato das Botas - Perrito -, um rafeiro tagarela e sempre optimista e amável que conquista facilmente os nossos corações. No entanto, os "vilões" são também bastante interessantes, especialmente o Lobo Mau, que tem realmente cenas mais assustadoras, e a invulgar família criminosa dos Ursos. 🌟🌟🌟🌟




E vocês?
Já viram algum destes filmes?


Ler mais

Passing

sábado, 25 de fevereiro de 2023


Hoje venho falar-vos de um livro que li em Fevereiro - Passing de Nella Larsen - e da sua adaptação cinematográfica, com o mesmo nome, que estreou em 2021.




- livro -
Publicado em 1929, este livro é considerado um clássico do Renascimento do Harlem ("Harlem Renaissance"), um movimento cultural afro-americano que se desenvolveu nos E.U.A. durante a década de 1920. Caracterizava-se pelo orgulho racial, expressão criativa e busca de um pensamento intelectual na comunidade afro-americana. A ideia era que esta cultura não se devia basear na europeia/caucasiana mas sim ser um reflexo da cultura negra. Várias figuras destacaram-se em diversas áreas e, em termos literários, são de realçar Zora Neale Hurston ("Their eyes were watching God"), James Baldwin (já falei de várias obras dele aqui) e Nella Larsen ("Quicksand", "Passing").

Passing, que em português poderia ser traduzido como "passabilidade/passando-se", refere-se à práctica de pessoas de cor que sendo "claras" o suficiente conseguem passar por caucasianas. Como tal, este livro conta a história de duas amigas de infância, Irene e Clare, que se encontram inesperadamente, após muitos anos sem se verem, num salão de chá num hotel em Chicago. Ambas são negras de tez clara que conseguiriam passar por brancas mas que adoptaram atitudes diferentes na sua vida perante esta possibilidade. Clare "passa-se" por branca e está casada com um homem branco que desconhece a origem afro-americana da esposa; Irene escolheu permanecer integrada na sociedade negra de Harlem e é casada com um médico, também negro. Este encontro inesperado entre ambas vai desencadear a vontade de Clare de resgatar a sua identidade negra e levar a uma série de reflexões por parte de Irene que é a nossa narradora.


Passing é um livro curto mas poderoso que se lê bem em 1 ou 2 dias. Aborda, de forma bastante honesta, questões raciais e noções de comunidade e identidade.

Temos duas personagens com personalidades bastante distintas, que optaram por escolhas de vida diferentes que as conduziram em direcções opostas. Clare é arrojada, sensual e ambiciosa, enquanto que Irene é cautelosa, pragmática e orgulhosa. Foi muito interessante acompanhar a dinâmica entre as duas ao longo da história visto que há uma relação tensa mas de atracção e inveja ao mesmo tempo.



Gostei também bastante das reflexões de Irene e dos sentimentos ambíguos que tem ao longo da história. Em vários momentos, ela vê-se confrontada com um dilema pertinente: lealdade a si mesma vs lealdade intra-racial. Por outro lado, não gostei tanto de não ter acesso aos pensamentos de Clare já que acho que teria sido benéfico conhecer melhor o ponto de vista da mulher que decide que vale a pena o acto de "passar-se".

Também, o final é bastante inesperado e talvez demasiado abrupto e ambíguo. Não desgostei mas deixou-me também um pouco insatisfeita.



De qualquer modo, é um livro que nos faz reflectir e que consegue retratar bem a atmosfera e preocupações de uma comunidade numa época em que a identidade era definida, em termos absolutos, com base na dicotomia racial (branco/negro).

Recomendo sobretudo para quem quer uma leitura rápida mas enriquecedora. Penso que este livro não se encontra disponível numa edição de Portugal mas está disponível numa edição da brasileira Imã Editorial com o nome de Passando-se. 🌟🌟🌟1/2



- adaptação -

O livro foi então adaptado em 2021 para o cinema e ficou conhecido em Portugal com o nome de Identidade. Conta com as interpretações de Tessa Thompson (Irene), Ruth Negga (Clare), André Holland (Brian - marido de Irene) e Alexander Skarsgård (John - marido de Clare). Foi a estreia da actriz Rebecca Hall enquanto realizadora e é um filme que está disponível na Netflix.



Apesar de não ser uma adaptação perfeita, foi uma que me deixou, de forma geral, satisfeita. Em termos de enredo, está bastante próximo da obra original e o ambiente recriado é fiel ao transmitido no livro. No entanto, o filme acaba por explorar de forma mais superficial as questões raciais e de identidade que são levantadas no livro. Isto porque neste temos acesso directo aos pensamentos e reflexões interiores da protagonista, enquanto que na adaptação muita informação fica por dizer e temos de interpretar mais as suas expressões para entender o que pensa/sente. Não que Tessa Thompson faça um mau trabalho (muito pelo contrário) mas realmente faltou explorar mais profundamente as temáticas e personagens.


No entanto, houve alguns aspectos que eu gostei de ver serem mais desenvolvidos. No livro, já está presente alguma tensão sexual entre as amigas (mais da Irene para com a Clare) mas é algo muito vago. Aqui há mais ambiguidade na relação, apesar de também ser retratada de forma subtil e com bom gosto. Há também um maior foco na relação familiar e matrimonial da Irene, o que me agradou.

O final mantém-se aberto e abrupto, muito fiel ao livro.



Em termos de interpretações, fiquei bastante satisfeita pois ambas as actrizes fizeram um óptimo trabalho. Fiquei especialmente impressionada com Tessa Thompson (com a qual geralmente não simpatizo) que desempenha aqui um papel mais contido e reservado, diferente dos seus habituais. Ruth Negga esteve bem mas senti que a personagem da Clare devia ter aparecido mais no filme. O restante elenco é bastante competente.


Em termos técnicos, acho que esta é uma estreia muito promissora da Rebecca Hall enquanto realizadora. Gostei da bonita fotografia a preto e branco, do estilo lânguido e da sensibilidade algo poética da filmagem - todos muito adequados à história.


Concluindo, acho que esta foi uma adaptação bem sucedida mas não arrebatadora. Provavelmente, saberá a pouco para quem não leu a obra original. 🌟🌟🌟



"We're all passing for something or other, aren't we?"



E vocês? 

Já leram o livro ou viram o filme?


Ler mais

«Ma vie de Courgette» & «Tout en haute du monde»

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Hoje trago mais duas opiniões perdidas. Desta vez, venho falar-vos de 2 filmes de animação que são óptimas escolhas para o Inverno.



Após a morte súbita da mãe, Courgette faz amizade com Raymond, um amável agente da polícia, que acompanha Courgette até à sua nova casa, cheia de outros órfãos da sua idade. De início, Courgette luta para encontrar o seu lugar neste ambiente estranho, às vezes hostil. No entanto, com a ajuda de Raymond e de novos amigos, Courgette aprende finalmente a confiar e a encontrar uma nova família.

A minha vida de courgette é um filme curtinho, com cerca de uma hora, e uma produção conjunta da Suíça e França. É um filme de animação em stop-motion que decorre numa casa de acolhimento e que se foca nos meninos que aí moram. E sem dúvida que este pano de fundo é um dos pontos fortes do filme. É bom ver uma história que está mais direccionada para crianças e que se foca em realidades diferentes das que elas estão habituadas, e que são pouco retratadas nos filmes convencionais. 


É um filme com uma atmosfera melancólica, que está obviamente associada à situação complicada destas crianças uma vez que todas elas têm passados traumáticos (pais alcoólicos, violência doméstica, abuso sexual, etc...) e receberam pouco amor na sua vida até chegarem a esta nova casa. No entanto, este é também um filme extremamente ternurento e repleto de esperança, mesmo nos seus momentos mais tristes, e possui uma mensagem subjacente extremamente positiva. É um filme emotivo, sem ser excessivamente doce, que enaltece valores como compaixão, solidariedade e companheirismo. 



Visualmente, o filme é também muito apelativo graças ao aspecto adorável dos bonecos criados. Todos eles têm olhos extremamente expresssivos, braços longos e um estilo peculiar. Além disso, os cenários são bastante simples e são utilizadas cores vibrantes para contrastar com os momentos mais negros.

É um filme muito aconchegante e cândido, que consegue explorar assuntos complexos sem nunca perder o tom inocente das crianças, e que recomendo tanto a miúdos mais crescidos como a graúdos. 🌟🌟🌟🌟



Sasha, uma jovem aristocrata russa, sempre foi fascinada pelas aventuras do seu avô: um prestigiado explorador que não regressou da sua última expedição ao Pólo Norte. Para salvar a honra da sua família, Sasha foge e aventura-se a ir em direcção ao Norte, seguindo o rasto de seu avô e do seu famoso navio.


Long way north é um filme francês/dinamarquês que estreou em 2015. Este filme indie foi a estreia, enquanto realizador, de Rémi Chayé, ilustrador e artista de animação.

Em primeiro lugar, há que mencionar que o ponto forte do filme é o seu estilo de animação bastante único e bonito. Na minha opinião, as cores pastel e a ausência de contorno a preto funcionam muito bem e conseguem dar-nos a impressão de estar a olhar para uma pintura.


Também gostei bastante da Sasha enquanto personagem principal e vale a pena ver a sua evolução ao longo da história: como ela passa de uma rapariga sonhadora e algo ingénua para uma rapariga lutadora e independente. É interessante ver o constante conflito entre ela e os marinheiros que acabam por não confiar nela por ser, essencialmente, do sexo feminino. De certo modo, esta é uma protagonista bem adequada aos tempos modernos apesar da história decorrer no séc. XIX.


Para além de ser um filme de aventura, é também um filme que se foca muito no papel da família. Temos a relação entre a Sasha e o seu avô que é super ternurenta, e facilmente torces para que no final tudo corra bem e eles se reencontrem. Temos também a relação conflituosa entre dois irmãos que trabalham juntos mas que têm personalidades e atitudes bem diferentes.


Infelizmente,  o enredo é, no fundo, um pouco genérico e previsível nalguns momentos. O ritmo em si é também um pouco lento para um filme de aventura. No entanto, consegue compensar pela atmosfera criada e pela acção decorrer em locais pouco habituais em filmes de animação. Sem dúvida, que o filme consegue transmitir bem a mística e a dureza das expedições marítimas ao Pólo Norte.


Concluindo, recomendo para quem gosta de animação e quer um filme perfeito para os dias frios. 🌟🌟🌟1/2



E vocês?
Já viram algum destes filmes?

Ler mais

«O duplo» & «A escavação»

sábado, 18 de fevereiro de 2023



Hoje venho dar início a uma rubrica que quero trazer para este blogue: "opiniões perdidas". Como o próprio nome indica, o objectivo é partilhar opiniões antigas que escrevi noutros cantinhos e que se perderam ao longo do tempo. Assim, garanto que vou tendo conteúdo "novo" neste blogue mesmo quando o tempo for escasso. Além disso, gosto da ideia de recuperar artigos antigos que eu acredito que ainda têm qualidade.
Para começar, quero partilhar duas leituras do ano 2020 cuja opinião já estavam disponíveis no instagram e que decidi copiá-las para aqui.


O duplo de Dostoievski foi publicado em 1846 e foi o segundo livro que li deste escritor russo. Narra as aventuras e inquietações do conselheiro titular Goliádkin, um funcionário público sem grande expressão social, que se torna obcecado com o aparecimento de um novo colega, que é uma réplica de si mesmo e que lhe usurpa a identidade.
Este é um livro extremamente psicológico que mergulha profundamente na mente confusa, perturbada e obcessiva do nosso protagonista. Goliádkin é um indivíduo inseguro e solitário, que vive uma existência simples e um pouco isolada, e que vai ser confrontado com este sósia que é, no fundo, tudo o que ele desejaria ser...um homem bem sucedido e confiante, que é reconhecido e aceite pelos seus pares e superiores.
O ritmo do livro é frenético à medida que acompanhamos os diálogos entrecortados, muito marcados por agitação e constrangimento, e as conversas mentais caóticas do nosso protagonista, que vai pouco a pouco perdendo a lucidez. É, sem dúvida, muito cativante acompanhar todos os delírios do nosso protagonista mas o seu estado mental leva também a que este livro se tenha tornado, por vezes, um pouco cansativo e repetitivo. De qualquer modo, o capítulo onde é narrada a primeira noite em que o duplo aparece é simplesmente fantástico.
É evidente a influência de Gogol neste livro, com o seu toque mais fantástico, mas é também já visível a essência das obras de Dostoiévski - a análise da complexidade da mente humana e a compaixão pelos seres mais vulneráveis. Recomendo! 🌟🌟🌟1/2



A escavação é a obra-prima do autor russo que, apesar de ter sido escrita em 1930, só foi publicada na sua totalidade nos finais dos anos 80 devido à censura do regime soviético. Um facto muito importante sobre o escritor é que ele era um comunista convicto e que foi partidário da Revolução Russa. No entanto, ele nunca se coíbiu, na altura, de tecer críticas incisivas aos excessos e políticas colectivistas do regime de Estaline.
E é isso mesmo que este livro também é! Esta é uma obra semi-distópica e semi-satírica que retrata  um grupo de trabalhadores a viver numa recém-formada União Soviética. Estes tentam escavar os alicerces de um grande edifício que servirá para abrigar o proletariado. É um trabalho difícil que consome muito da sua força física e mental, e mutios deles sentem que nem percebem o significado do seu trabalho e da sua existência.
Confesso que sinto que não tenho capacidades e qualificações suficientes para escrever uma crítica constructiva que faça jus ao espírito do livro mas, de qualquer modo, vou tecer algumas considerações gerais.
Este é um livro repleto de metáforas e simbolismo, com alguns toques do absurdo e surrealismo. Através destes, o livro retrata muito bem a colisão entre o sonho soviético, repleto de idealismo e esperança, e a sua terrível realidade, repleta de desespero e auto-destruição. Há um misto de esperança e desespero nestas pessoas que se deixam destruir para construir  um novo país.
É um livro negro e triste e a escrita de Platonov é algo invulgar (nem sei bem explicar porquê!). Para mim, o livro é, às vezes, um pouco repetitivo e confuso, e nem sempre o surrealismo funcionou comigo. Acho também que, inevitavelmente, muitas nuances se perderam na tradução.
De qualquer modo, foi uma leitura impactante e pretendo relê-la no futuro. 🌟🌟🌟1/2



E vocês? Já leram algum destes livros?


Ler mais

«The Banshees of Inisherin», «Tar» & «Triangle of sadness»

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Hoje trago as opiniões de três filmes que estão nomeados para o Óscar de Melhor Filme. Todos eles têm recebido muita atenção e amor por parte da crítica. De forma geral, foram também três filmes que eu apreciei bastante.


realizado por  MARTIN MCDONAGH   protagonizado por  COLIN FARRELL, BRENDAN GLEESON, KERRY CONDON, BARRY KEOGHAN

Passado nos anos de 1920, numa ilha remota ao largo da costa ocidental da Irlanda, o filme acompanha dois amigos de longa data, Pádraic e Colm, a partir do momento em que Colm põe inesperadamente fim à amizade.
Um Pádraic atordoado, tenta reparar a relação com o auxílio da irmã, Siobhán, e do jovem Dominic. Mas os esforços repetidos de Pádraic apenas reforçam a determinação do seu antigo amigo e quando Colm lança um desesperado ultimato, os acontecimentos depressa assumem maior gravidade com alarmantes consequências.


Os Espíritos de Inisherin estreou agora no início de Fevereiro e era um dos filmes que eu mais queria ver em 2023. Para além das boas críticas que tem recebido, eu costumo gostar bastante dos filmes deste realizador logo estava muito curiosa. Felizmente, o filme não defraudou.
Visualmente, este é um filme lindíssimo com as belíssimas e algo desoladoras paisagens da Irlanda a servirem como um perfeito pano-de-fundo para esta história tragicómica.
A premissa inicial é simples e até um pouco ridícula - basicamente o fim repentino de uma relação de amizade - mas o filme acaba por retratar também a dinâmica de uma comunidade rural pequena e explorar a crueldade do isolamento e sentimentos de desespero existencial. Tudo isto mantendo uma atmosfera de fábula. É uma história com um tom cínico, melancólico e sombrio mas é, ao mesmo tempo, enternecedora, engraçada e trágica. Há momentos em que realmente não sabia se devia chorar ou rir.
É claro que esta história minimalista só funciona graças às brilhantes interpretações de vários actores do elenco. Colin Farrell, Brendan Gleeson e Kerry Condon estão perfeitos mas aquele que verdadeiramente me conquistou foi Barry Keoghan. Muito tocante e autêntico. Mas não é de estranhar que todos estejam nomeados na corrida para os Óscares!
Foi um filme que, de certo modo, me desarmou e cuja pontuação acredito que ainda possa subir no futuro. 🌟🌟🌟🌟1/2


realizado por  TODD FIELD   protagonizado por  CATE BLANCHETT, NINA HOSS, MARK STRONG

O filme centra-se em Lydia Tár, amplamente considerada uma das maiores compositoras-maestrinas vivas e a primeira a dirigir uma grande orquestra alemã. Acompanhamos a sua vida à medida que ela está a poucos dias de gravar a sinfonia que impulsionará ainda mais a sua já formidável carreira. 


Tár estreou recentemente. Parti para este filme sem saber muito sobre o seu enredo e acho que isso foi algo bastante positivo e que recomendo que também o façam.
É um filme que temia que fosse muito pretencioso mas que, apesar de ter o seu lado mais intelectual (ainda por cima ligado à música - assunto que não domino de todo), não deixa de ser envolvente e interessante. É um filme que não nos dá tudo de bandeja, é um filme que confia na inteligência do espectador e que vai revelando os pormenores pouco a pouco, de forma subtil. Aquilo que começa de uma forma mais fria e formal vai dando lugar a um crescendo de caos e descontrolo.
É também um filme que procura reflectir sobre o preço da grandeza e do génio de um artista, bem como se é realmente possível ou necessário separar a arte do artista.
Cate Blanchett está soberba no papel da enigmática e poderosa Lydia e o filme não funcionaria tão bem sem a sua interpretação tão cativante. De destacar também a fotografia elegante e sóbria.
Não acredito que seja um filme para todos mas a mim surpreendeu-me bastante. 🌟🌟🌟🌟


realizado por  RUBEN OSTLUND   protagonizado por  HARRIS DICKINSON, CHARLBI DEAN, WOODY HARRELSON, DOLLY DE LEON

Carl e Yaya, modelos e influenciadores no mundo da moda, são convidados para um cruzeiro a bordo de um luxuoso iate na companhia de um oligarca russo e de um traficante de armas inglês.
O capitão, idiossincrático e alcoólico, muito dado a citar Marx, decide punir os passageiros servindo um lauto jantar durante uma forte tempestade. Tudo termina de forma catastrófica com Carl, Yaya e os multimilionários encalhados numa ilha deserta acompanhados por uma das empregadas de limpeza da embarcação.


Triângulo da Tristeza estreou em Portugal no passado mês de Outubro mas, na altura, passou-me completamente ao lado. Como foi nomeado para algumas categorias dos Óscares, resolvi vê-lo e foi uma experiência divertida e bizarra.
Este é um filme excêntrico e provocador que procura satirizar questões de classes sociais, consumismo e papéis de género. Retrata jogos de poder com sarcasmo, humor e recorrendo, por vezes, a situações desconfortáveis/ridículas.
Este está essencialmente dividido em 3 partes: antes do cruzeiro, durante o cruzeiro e o período da ilha.  A relação entre Carl e Yaya permanece sempre em primeiro plano, mas o filme torna-se cada vez mais uma sátira do grupo à medida que a história se desenrola. Para mim, as duas primeiras partes são sólidas (especialmente a segunda que é meio caótica e tem os melhores diálogos entre 2 personagens) mas a terceira é talvez um pouco longa demais e perde um pouco o foco.
Recomendo se gostam de filmes irreverentes, com uma visão crítica e ácida, apesar da mensagem não ser propriamente inovadora ou subtil. 🌟🌟🌟
Do realizador sueco Ruben Ostlund só tinha visto até agora o filme Force Majeure (2014) mas falta-me ver o filme que o tornou mais conhecido - The Square (2017) - que inclusive foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional.



E vocês?

Viram algum destes filmes?

Ler mais

Thérèse Desqueyroux, François Mauriac

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Uma das minhas resoluções literárias dos últimos tempos foi a de que ia começar a tentar ler mais autores vencedores do Nobel da Literatura. Fiz uma lista dos que mais me interessavam e, pouco a pouco (muito lentamente!) tenho vindo a comprar e ler esses livros. Hoje trago então a opinião literária de uma obra do escritor francês François Mauriac, vencedor do prémio em 1952.



Thérèse Desqueyroux foi publicado em 1927 e foi inspirado num caso real da senhora Canaby, que tentou envenenar o seu marido. Ela foi absolvida, mas condenada por falsificar prescrições médicas. 
Esta história decorre em Landes, no sul de França, na década de 20. O livro começa logo com o fim de um processo judicial: Therese, mulher de 30 anos e oriunda de boas famílias, sai do tribunal absolvida da acusação de ter tentado envenenar o seu marido Bernard. Ela entra numa carruagem de volta a casa para se reencontrar com Bernard que está a recuperar, e durante esta viagem ela vai reflectir no que a levou a envenenar o seu marido e o que lhe deve dizer agora.


Este é um livro com uma estrutura interessante e invulgar, funcionando como um longo monólogo na primeira pessoa interrompido por flashbacks e mudanças temporais. Esta estrutura confere um estilo muito íntimo à narrativa, o que nos permite mergulhar a fundo na mente da nossa protagonista. De facto, apesar de o livro ser curto (125 páginas), este é dotado de uma grande profundidade psicológica e de uma prosa rica e humanista. Em poucas páginas, são várias as citações marcantes.


Todas as personagens são, no fundo, desagradáveis, incluindo a nossa protagonista que é uma mistura de vítima e vilã. Thérèse tem muitas falhas mas é também inevitável não nos sentirmos atraídos por ela uma vez que é uma mulher limitada pelas convenções sociais e familiares. Uma mulher atormentada, que se sente presa numa vida familiar que considera claustrofóbica e repressiva (atmosfera que permeia toda a novela), e que me conquistou pela sua complexidade. De facto, há uma constante ambiguidade associada a Thérèse nesta sua jornada de auto-descoberta...de motivações, de personalidade e, até um pouco, de sexualidade. 


Concluindo, recomendo este livro para quem gosta de leituras que funcionam como um estudo das profundezas obscuras da mente humana. Sinto que este livro daria uma boa dose dupla de leitura com Anna Karenina ou Madame Bovary. 🌟🌟🌟🌟


Existem duas adaptações mais famosas desta obra: o clássico francês de 1962, realizado por Georges Franju e protagonizado por Emmanuelle Riva, e uma adaptação moderna de 2012, protagonizado por Audrey Tautou (a actriz de O fabuloso destino de Amélie). Ainda não vi nenhum dos filmes mas gostava de assistir algum ainda este ano.

Gostei de conhecer a escrita de Mauriac e gostava de ler algo mais do autor. A sua outra obra mais famosa é "O nó de víboras" que, ao que parece, está esgotado. Pode ser que um dia me cruze com algum exemplar num alfarrabista.



E vocês? Já leram algo deste escritor?

Ler mais

The Offer (2022)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Hoje venho falar-vos de uma minissérie de 2022 que acabei recentemente. Esta chama-se The Offer e é uma série que foi produzida pela Paramount como parte das comemorações dos 50 anos do filme O Padrinho. Esta é baseada nas incríveis experiências do produtor, Albert S. Ruddy, e conta a conturbada história da produção de um dos maiores filmes da história do cinema. É constituída por 10 episódios de cerca de 1 hora cada.


A série foca-se nos complicados bastidores do filme, acompanhando sobretudo o produtor Albert S. Ruddy (Miles Teller) e o executivo e chefe de produção da Paramount, Robert Evans (Matthew Goode), enquanto eles lidam com os vários problemas que surgem durante a produção e filmagem desta grande obra do cinema. Com a ajuda da sua assistente Bettye McCartt (Juno Temple), Al enfrenta resistência dentro do próprio estúdio e a oposição direta da máfia por causa da representação dos italo-americanos. 

Outras personagens importantes na série são: o realizador Francis Ford Coppola (Dan Fogler),  Mario Puzo (Patrick Gallo) - o escritor do livro original, o executivo Barry Lapidus (Colin Hanks), Joe Colombo (Giovanni Ribisi) - um dos chefes da Máfia - e os actores Marlon Brando (Justin Chambers) e Al Pacino (Anthony Ippolito).



Esta foi uma série que abordei com poucas expectativas e, realmente, com pouca noção do que realmente se tinha passado nos bastidores do filme. Com base nas poucas opiniões que tinha ouvido, esperava apenas encontrar uma série descontraída e divertida, e foi isso mesmo que encontrei.

É uma série um pouco satírica, com uma história interessante, atribulada e caótica que manteve a minha atenção sempre presa em cada episódio. Esta é contada sobretudo do ponto de vista do produtor que, no fundo, é um elemento do mundo cinematográfico cujo trabalho é mais desconhecido ou, pelo menos, menos explorado em filmes/séries. Como tal, gostei de conhecer melhor qual o seu papel e principais responsabilidades. Aqui acompanhamos-o na busca pelo director e elenco ideais, na resolução de conflitos de modo a cumprir orçamentos que fossem de encontro às necessidades das gravações, no servir como uma ponte entre o estúdio e a parte criativa e, talvez o mais caricato, o lidar com a Máfia!

Claro que o que temos aqui é uma obra fictícia e não um documentário logo é óbvio que algumas liberdades criativas foram tomadas para tornar a experiência mais excitante. Mesmo assim, muitos dos eventos retratados, apesar de exagerados, realmente aconteceram o que não deixou de me impressionar. 



De uma forma geral, gostei das interpretações apesar de algumas tenderem mais para a caricatura (Giovanni Ribisi é o que cai mais neste erro). As personagens em si não são muito aprofundadas mas, de uma forma geral, conseguimos compreender as suas principais qualidades e defeitos. Miles Teller esteve bastante bem mas foi Matthew Goode que me conquistou enquanto o determinado, carismático e excêntrico executivo da Paramount. A personagem da assistente do produtor não me convenceu totalmente, não propriamente a nível de interpretação mas sim a nível de história. Tenho dificuldades em acreditar que ela fosse assim tão eficaz na vida real e que tenha tido um impacto tão grande na produção do filme mas sinto que, nos dias de hoje, é sempre necessário incluir uma mulher forte no enredo o que acredito que tenha enriquecido o seu papel.

Gostei também de ver recriados alguns dos momentos icónicos do filme e os actores que interpretaram Marlon Brando e Al Pacino estiveram bastante bem...similares sem se tornarem demasiado exagerados.


Concluindo, esta é uma série que recomendo se gostam de histórias sobre Hollywood, sobre como os filmes são criados e produzidos. Acaba por ser uma experência de visualização mais envolvente caso já tenham visto o filme original mas não acredito que precisem de ser grandes fãs de O Padrinho para apreciar esta série. 🌟🌟🌟1/2



E vocês? Já viram esta série?

Ler mais

«All quiet on the western front», «Argentina, 1985» & «Decision to leave»

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Hoje trago as opiniões de mais três filmes que estrearam em 2022 e que foram bastante bem recebidos durante a época de prémios, estando dois deles inclusivamente nomeados para os Óscares na categoria de Melhor Filme Internacional.


realizado por  EDWARD BERGER   protagonizado por  FELIX KAMMERER, ALBRECHT SCHUCH, DANIEL BRUHL

No início da Primeira Guerra Mundial, o estudante Paul Baumer e os seus amigos Albert e Muller, animados por sonhos românticos de heroísmo, alistam-se voluntariamente no exército alemão. Cheios de excitação e fervor patriótico, os rapazes marcham entusiasticamente para uma guerra em que acreditam. Mas uma vez na Frente Ocidental, descobrem um horror destruidor de corpos e almas.


A Oeste nada de novo é baseado no livro alemão com o mesmo nome de Erich Maria Remarque, um livro de ficção publicado em 1929 e baseado nas memórias do próprio autor que foi soldado durante a I Guerra Mundial. Foi um livro que li em 2018 e que me lembro que, na altura, me impressionou bastante.
Tal como o livro, este é um filme duro e brutal que não se coíbe de mostrar o horror e crueldade da guerra das trincheiras. As dificuldades em rastejar através da terra e lama, a fome, o pânico, as condições deploráveis dos cuidados médicos e o efeito que os pequenos prazeres da vida tinham nos soldados. Tal como Paul expressa no livro, o filme consegue transmitir bem que a guerra não é sinónimo de patriotismo e honra mas sim uma mistura de sorte, automatismo e perda de dignidade, funcionando assim como um filme anti-guerra que consegue retratar bem a desumanização dos soldados.
Tecnicamente, é um filme muito bem executado e não é de estranhar todas as nomeações para os Óscares que recebeu nessas áreas (fotografia, som, maquilhagem). A nível de interpretações, é um filme sólido e há algumas cenas realmente marcantes. 
No entanto, para mim, este peca por ser longo demais e ter um ritmo algo lento. Sinto que também não me impressionou tanto porque li o livro e este é ainda mais arrepiante ao retratar os horrores da I Guerra Mundial do ponto de vista de um soldado - a sujidade e as doenças, os efeitos do gás mostarda, a luta pela sobrevivência. Também sinto que o filme, e apesar de este ter tentado através do ponto de vista de outras personagens, não consegue capturar tão bem quanto o livro o nível de indiferença da vida civil e das altas patentes do exército perante os soldados. Existem partes importantes no livro, relativamente à vida civil, que são completamente ignoradas nesta adaptação.
Vou-lhe dar a mesma pontuação que dei à adaptação de 1930, da qual também gostei mas que não me marcou tanto quanto o livro. 🌟🌟🌟1/2


realizado por  SANTIAGO MITRE   protagonizado por  RICARDO DARÍN, PETER LANZANI

Filme inspirado na história de Julio Strassera, Luis Moreno Ocampo e da sua jovem equipa de advogados, numa batalha desigual onde tentam a levar a tribunal os membros da ditadura militar argentina.


Argentina, 1985 estreou em Portugal no passado mês de Outubro mas só entrou no meu radar recentemente durante a época das premiações. Cinema político e dramas de tribunal são géneros que geralmente aprecio e este realmente é um filme sólido em ambos os aspectos.
Apesar de ter começado este filme com pouca noção deste período histórico da Argentina, rapidamente o filme nos coloca a par dos pontos mais importantes, o que torna esta história bastante acessível. Ao longo do filme, vamos alternando, de forma fluida, entre o processo em si (desde a recolha de provas ao julgamento) e alguns dos aspectos privados da vida dos procuradores, algo que também ajuda a contextualizar melhor certos aspectos da ditadura e da sociedade argentina da época.
O tema é complexo, pesado e triste e aqui é abordado de uma forma sensível e natural, mas sem nunca perder força e precisão. É um filme que se preocupa em reflectir sobre o impacto traumático da ditadura argentina, sobre questões de justiça e direitos humanos, procurando manter sempre uma aura de autenticidade e evitando o melodrama.
Tem também algumas cenas poderosas e marcantes, especialmente, os chocantes relatos de familiares de desaparecidos e de vítimas de tortura, e o discurso final do procurador.
Em termos de interpretações, guarda-roupa e fotografia, este é um filme competente e sóbrio. Ricardo Darín é um grande actor e está óptimo neste filme, tal como é já é habitual. Peter Lanzani também me convenceu bastante e fiquei curiosa em espreitá-lo noutros filmes.
Não tenho muita experiência com o cinema da Argentina mas, até agora, esta tem sido muito positiva. Devia investir mais nesta área! 🌟🌟🌟🌟


realizado por  PARK CHAN-WOOK   protagonizado por  TANG WEI, PARK HAE-IL, LEE JUNG-HYUN

Um homem cai do pico de uma montanha e morre. O detective responsável, Hae-joon, conhece Seo-rae, esposa do falecido. A morte do marido não parece perturbá-la. Face ao comportamento tão atípico de um familiar enlutado, a polícia considera-a suspeita. Hae-joon interroga Seo-rae e decide vigiá-la. À medida que a observa sente-se cada vez mais interessado nela.


Decisão de partir estreou no passado mês de Dezembro em Portugal e, na altura, decidi vê-lo porque este foi realizado por Park Chan-Wook, o mesmo realizador de um dos meus filmes preferidos de 2016 - The Handmaiden/A criada. Infelizmente, a nível de enredo este foi um filme que não me impressionou apesar de me ter maravilhado a nível visual.
Em termos técnicos, a fotografia é excelente, a realização é muito competente e a edição artística é intrigante em vários momentos. Em termos de história, este é essencialmente um drama romântico e melancólico disfarçado de um filme policial com toques noir e com influências claras dos filmes de Hitchcock. Geralmente, isso seria algo que me intrigaria mas a relação amorosa obcessiva e a tensão entre os dois protagonistas não me convenceu de todo e, como tal, o filme soou-me extremamente frio e tive dificuldades em manter-me investida na história. A sua longa duração (quase 2h30) e o seu ritmo lento também não ajudaram. No entanto, adorei a interpretação de Tang Wei que consegue trazer o nível certo de mistério, magnetismo e ambiguidade à personagem feminina.
O final trágico é excelente e teria tido um maior impacto se eu me tivesse sentido mais conectada com o casal. Este é um daqueles filmes que é difícil classificar e que anda entre os 3 e 3,5. 🌟🌟🌟



E vocês?

Viram algum destes filmes?

Ler mais