«O duplo» & «A escavação»

sábado, 18 de fevereiro de 2023



Hoje venho dar início a uma rubrica que quero trazer para este blogue: "opiniões perdidas". Como o próprio nome indica, o objectivo é partilhar opiniões antigas que escrevi noutros cantinhos e que se perderam ao longo do tempo. Assim, garanto que vou tendo conteúdo "novo" neste blogue mesmo quando o tempo for escasso. Além disso, gosto da ideia de recuperar artigos antigos que eu acredito que ainda têm qualidade.
Para começar, quero partilhar duas leituras do ano 2020 cuja opinião já estavam disponíveis no instagram e que decidi copiá-las para aqui.


O duplo de Dostoievski foi publicado em 1846 e foi o segundo livro que li deste escritor russo. Narra as aventuras e inquietações do conselheiro titular Goliádkin, um funcionário público sem grande expressão social, que se torna obcecado com o aparecimento de um novo colega, que é uma réplica de si mesmo e que lhe usurpa a identidade.
Este é um livro extremamente psicológico que mergulha profundamente na mente confusa, perturbada e obcessiva do nosso protagonista. Goliádkin é um indivíduo inseguro e solitário, que vive uma existência simples e um pouco isolada, e que vai ser confrontado com este sósia que é, no fundo, tudo o que ele desejaria ser...um homem bem sucedido e confiante, que é reconhecido e aceite pelos seus pares e superiores.
O ritmo do livro é frenético à medida que acompanhamos os diálogos entrecortados, muito marcados por agitação e constrangimento, e as conversas mentais caóticas do nosso protagonista, que vai pouco a pouco perdendo a lucidez. É, sem dúvida, muito cativante acompanhar todos os delírios do nosso protagonista mas o seu estado mental leva também a que este livro se tenha tornado, por vezes, um pouco cansativo e repetitivo. De qualquer modo, o capítulo onde é narrada a primeira noite em que o duplo aparece é simplesmente fantástico.
É evidente a influência de Gogol neste livro, com o seu toque mais fantástico, mas é também já visível a essência das obras de Dostoiévski - a análise da complexidade da mente humana e a compaixão pelos seres mais vulneráveis. Recomendo! 🌟🌟🌟1/2



A escavação é a obra-prima do autor russo que, apesar de ter sido escrita em 1930, só foi publicada na sua totalidade nos finais dos anos 80 devido à censura do regime soviético. Um facto muito importante sobre o escritor é que ele era um comunista convicto e que foi partidário da Revolução Russa. No entanto, ele nunca se coíbiu, na altura, de tecer críticas incisivas aos excessos e políticas colectivistas do regime de Estaline.
E é isso mesmo que este livro também é! Esta é uma obra semi-distópica e semi-satírica que retrata  um grupo de trabalhadores a viver numa recém-formada União Soviética. Estes tentam escavar os alicerces de um grande edifício que servirá para abrigar o proletariado. É um trabalho difícil que consome muito da sua força física e mental, e mutios deles sentem que nem percebem o significado do seu trabalho e da sua existência.
Confesso que sinto que não tenho capacidades e qualificações suficientes para escrever uma crítica constructiva que faça jus ao espírito do livro mas, de qualquer modo, vou tecer algumas considerações gerais.
Este é um livro repleto de metáforas e simbolismo, com alguns toques do absurdo e surrealismo. Através destes, o livro retrata muito bem a colisão entre o sonho soviético, repleto de idealismo e esperança, e a sua terrível realidade, repleta de desespero e auto-destruição. Há um misto de esperança e desespero nestas pessoas que se deixam destruir para construir  um novo país.
É um livro negro e triste e a escrita de Platonov é algo invulgar (nem sei bem explicar porquê!). Para mim, o livro é, às vezes, um pouco repetitivo e confuso, e nem sempre o surrealismo funcionou comigo. Acho também que, inevitavelmente, muitas nuances se perderam na tradução.
De qualquer modo, foi uma leitura impactante e pretendo relê-la no futuro. 🌟🌟🌟1/2



E vocês? Já leram algum destes livros?