Uma das minhas resoluções literárias dos últimos tempos foi a de que ia começar a tentar ler mais autores vencedores do Nobel da Literatura. Fiz uma lista dos que mais me interessavam e, pouco a pouco (muito lentamente!) tenho vindo a comprar e ler esses livros. Hoje trago então a opinião literária de uma obra do escritor francês François Mauriac, vencedor do prémio em 1952.
Thérèse Desqueyroux foi publicado em 1927 e foi inspirado num caso real da senhora Canaby, que tentou envenenar o seu marido. Ela foi absolvida, mas condenada por falsificar prescrições médicas.
Esta história decorre em Landes, no sul de França, na década de 20. O livro começa logo com o fim de um processo judicial: Therese, mulher de 30 anos e oriunda de boas famílias, sai do tribunal absolvida da acusação de ter tentado envenenar o seu marido Bernard. Ela entra numa carruagem de volta a casa para se reencontrar com Bernard que está a recuperar, e durante esta viagem ela vai reflectir no que a levou a envenenar o seu marido e o que lhe deve dizer agora.
Este é um livro com uma estrutura interessante e invulgar, funcionando como um longo monólogo na primeira pessoa interrompido por flashbacks e mudanças temporais. Esta estrutura confere um estilo muito íntimo à narrativa, o que nos permite mergulhar a fundo na mente da nossa protagonista. De facto, apesar de o livro ser curto (125 páginas), este é dotado de uma grande profundidade psicológica e de uma prosa rica e humanista. Em poucas páginas, são várias as citações marcantes.

Todas as personagens são, no fundo, desagradáveis, incluindo a nossa protagonista que é uma mistura de vítima e vilã. Thérèse tem muitas falhas mas é também inevitável não nos sentirmos atraídos por ela uma vez que é uma mulher limitada pelas convenções sociais e familiares. Uma mulher atormentada, que se sente presa numa vida familiar que considera claustrofóbica e repressiva (atmosfera que permeia toda a novela), e que me conquistou pela sua complexidade. De facto, há uma constante ambiguidade associada a Thérèse nesta sua jornada de auto-descoberta...de motivações, de personalidade e, até um pouco, de sexualidade.
Concluindo, recomendo este livro para quem gosta de leituras que funcionam como um estudo das profundezas obscuras da mente humana. Sinto que este livro daria uma boa dose dupla de leitura com Anna Karenina ou Madame Bovary. 🌟🌟🌟🌟
Existem duas adaptações mais famosas desta obra: o clássico francês de 1962, realizado por Georges Franju e protagonizado por Emmanuelle Riva, e uma adaptação moderna de 2012, protagonizado por Audrey Tautou (a actriz de O fabuloso destino de Amélie). Ainda não vi nenhum dos filmes mas gostava de assistir algum ainda este ano.
Gostei de conhecer a escrita de Mauriac e gostava de ler algo mais do autor. A sua outra obra mais famosa é "O nó de víboras" que, ao que parece, está esgotado. Pode ser que um dia me cruze com algum exemplar num alfarrabista.
E vocês? Já leram algo deste escritor?