Em 2020, estreei-me na obra do escritor francês Honoré de Balzac, com a leitura do livro O Pai Goriot (opinião aqui). Como a experiência foi bastante positiva, decidi que este era um autor no qual queria continuar a investir e acabei por comprar, na altura, o Eugénie Grandet. Dois anos depois, decidi lê-lo e aqui estou eu, hoje, com a opinião de um livro que também me agradou bastante.
Publicado em 1833, Eugénie Grandet é uma das primeiras e mais famosas obras de A Comédia Humana, que é uma colecção de livros individuais, mas tematicamente interligados, escrita por Balzac com o objectivo de retratar toda a sociedade francesa da época. Esta é uma saga monumental composta por cerca de 95 obras, escritas entre 1829 e 1848, que está organizada em 3 tipos de estudos: costumes, analíticos e filosóficos. Dentro do Estudo de Costumes, existem várias colecções que são designadas de "cenas". Este livro encaixa-se nas "Cenas da vida provinciana".
A história decorre na pequena cidade francesa de Saumur, onde vive a família burguesa Grandet, durante a época da Restauração Francesa (1814-1830). O patriarca da família é Felix Grandet, produtor e comerciante de vinhos, ex-tanoeiro abastado que enriqueceu após a Revolução Francesa e com a herança de casamento da sua esposa. O Pai Grandet é um indivíduo extremamente avarento e individualista, que possui apenas uma única herdeira - Eugénie. A sua mão é disputada fortemente por dois representantes das famílias tradicionais locais, Cruchet e Des Grassins, e Monsieur Grandet vai jogando com a amizade de ambas para proveito próprio. No entanto, toda a dinâmica desta família, que apesar de ser rica vive de forma miserável, vai ser abalada com a chegada de Charles, o elegante primo parisiense e aristocrático.
A sinopse, por si só, parece indicar o início de um drama romântico, mas esse não é realmente o estilo de Balzac, que ficou mesmo conhecido como o fundador do realismo. De uma forma geral, o que este livro nos apresenta é um estudo da burguesia rural e uma crítica à ganância e à influência que o dinheiro exerce na vida e personalidade das pessoas. Há aqui, claramente, um embate entre dois mundos - o materialista do pai Grandet e o romântico de Eugénie - e o escritor apresenta-nos uma visão cínica, mas bastante verdadeira, do poder corruptor e, potencialmente destrutivo, do dinheiro.
Há claramente uma verdadeira preocupação em retratar, com pormenor, aspectos socioeconómicos da época e em expôr a natureza humana, de forma íntima, sem dissimulações. É também muito interessante como Balzac contrasta a ganância e a ambição da França rural em relação à de Paris. Nenhuma está moralmente correcta mas ambas são apresentadas de forma diferente.
Quanto à escrita, Balzac convenceu-me novamente com a sua prosa rica e vívida. É descritiva mas acessível e convida a uma leitura rápida. O livro é curto, com cerca de 200 páginas, apresentando toques de tragédia e um final que me agradou bastante.
Balzac é exímio em criar personagens marcantes, de construção simples mas "maiores do que a vida", mesmo sendo algumas delas detestáveis. O Pai Grandet é uma personagem muito pragmática e intuitiva mas, ao mesmo tempo, muito mesquinha, egoísta e sem escrúpulos. Um verdadeiro tirano doméstico, ganancioso ao ponto de obcessão (lembra Scrooge do Dickens). A empregada Nanon é um verdadeiro tesouro e a jornada da inocente Eugénie é muito interessante de se acompanhar. Há claramente uma idolização excessiva da piedade das personagens femininas mas é algo próprio da época.
Concluindo, este é um livro que recomendo bastante, até para quem se quer iniciar na obra deste escritor. Já eu, quero continuar a investir em Balzac! 🌟🌟🌟🌟




