A Letra Escarlate, Nathaniel Hawthorne

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Queria começar o ano de 2020 com um clássico curto e que eu tivesse numa edição em português, para me sentir mais motivada na leitura, e este era um que eu tinha debaixo de olho na minha estante há já algum tempo. Sempre ouvi críticas muito negativas de leitores americanos que tiveram de ler este livro na escola e, como tal, sempre estive um pouco de pé atrás com ele. No entanto, após ter lido outro livro do autor há uns 3 anos atrás - The House of seven gables - e ter adorado, lá me decidi a comprar o The Scarlet Letter. Como já referi, esta foi então a minha primeira leitura do ano e foi uma experiência positiva que valeu a pena.


The Scarlet Letter, A Letra Escarlate ou A Letra Encarnada em português, foi escrito por Nathaniel Hawthorne e publicado em 1850 nos Estados Unidos da América. É um livro histórico que decorre na colónia puritana de Boston, na Baía de Massachusetts, durante os anos de 1642 a 1649. A sua protagonista é Hester Prynne, uma mulher que é declarada culpada por adultério e condenada a usar a letra "A" bordada nas roupas como castigo pelo seu crime. Ao longo do livro, conhecemos as consequências da sua infidelidade e acompanhamos Hester à medida que ela procura encontrar um lugar para si e para a sua filha, fruto do adultério, no seio desse ambiente hostil.


A Letra Escarlate é um livro que funciona, acima de tudo, como uma crítica ao puritanismo e aos seus costumes conservadores que, não eram nada mais do que preconceituosos e hipócritas. É uma história que não se foca muito em eventos mas sim no desenvolvimento psicológico das personagens que vivem, na sua maioria, atormentadas por erros do passado. O autor explorou, nesta obra, sentimentos de culpa, cinismo e cobardia, e teceu comentários sobre a alma, a natureza do pecado, a condição humana e o modo de pensar da época.
Acho que este é também um livro feminista, repleto de simbolismo. Hester, a nossa heroína, é uma mulher forte e benevolente que não procura redenção e que floresce no meio da comunidade corrompida e cínica que a rodeia. Não sente arrependimento por ter cedido à paixão pelo homem que amava e consegue tornar os símbolos do seu pecado - a letra A e a filha - nas suas maiores fontes de força. A sua filha Pearl é uma criança peculiar, que confere um tom quase de fábula à história, e gostei muito da exploração da ligação entre a mãe e a filha. Por outro lado, os dois homens importantes da história - o seu marido e o pai da sua filha - simbolizam rancor, ciúme, duplicidade, vergonha e fraqueza.
Não é uma leitura fácil porque a escrita de Hawthorne está repleta de floreados e divagações, mas é esta escrita cuidada que aliada à densidade psicológica da narrativa o distingue de outros livros do género. É um livro que exige concentração e que é, em certos momentos um pouco mais enfadonho, mas foi, para mim, uma leitura recompensadora. No entanto, percebo completamente que este não seja um livro muito apelativo para os jovens ou pessoas pouco habituadas a ler clássicos.


Uma das críticas que li foi que o livro era previsível. Pessoalmente, não considero que o autor quisesse esconder quem é o pai da pequena Pearl; acho que é óbvio, desde o início, quem ele é e acho que essa era a intenção do autor pois torna os vários conflitos internos e interacções entre personagens ainda mais interessantes.
É importante mencionar também o longo prefácio, que não está ligado directamente à história (podem saltá-lo), mas que eu gostei de ler porque nele Hawthorne reflectiu sobre a sua ligação especial a Salem, a sua cidade natal. Muito interessante! A minha edição da Relógia d' Água conta uma tradução de Fernando Pessoa, o que tornou o livro duplamente apelativo.
Concluindo, esta foi uma óptima primeira leitura do ano que me conquistou pelo seu rico retrato psicológico e análise do impacto da hipocrisia do conservadorismo religioso. A escrita de Hawthorne não é para todos mas eu fiquei com vontade de ler mais obras do autor. 🌟🌟🌟🌟



E vocês? Já leram este livro ou outro do autor?
Qual foi a vossa primeira leitura do ano?