Hoje trago finalmente a opinião de um dos meus livros favoritos de 2019: Tess of the D'Urbervilles de Thomas Hardy. Este é o segundo livro que leio do autor e, mais uma vez, foi um livro que me conquistou pelas suas personagens e atmosfera. Falo também de duas das suas adaptações: o filme de 1979 e a minissérie da BBC de 2008.
- livro -
Tess of the D' Urbervilles, Tess dos Urbervilles em Portugal, foi publicado pela primeira vez em 1891 e é o segundo livro que leio do escritor victoriano Thomas Hardy. O primeiro foi o Longe da multidão/Far from the madding crowd, que li há cerca de 4 anos atrás. Apesar desta não ter sido uma leitura fácil, foi uma leitura marcante que me deixou com vontade de explorar mais a obra de Hardy. Quase cinco anos mais tarde, acabei por pegar no Tess, um livro que confirmou o meu gosto pelo estilo do autor.
Este é um livro que decorre no séc. XIX, mais precisamente durante a Depressão de 1870s no sul rural de Inglaterra, na zona fictícia de Wessex. A nossa protagonista é a Tess, uma jovem com 16 anos e a filha mais velha de um casal de camponeses pobre e com muitos filhos. Convencidos de que possuem sangue nobre, já que o seu apelido "Durbeyfield" é uma corrupção do nome "d'Urberville" - o apelido de uma extinta casa nobre normanda -, os pais empurram a filha para a casa de uma suposta parente mais afortunada, onde esta encontra trabalho e abrigo. No entanto, aí vai encontrar também Alec, um homem sem escrúpulos que a vai perseguir e abusar sexualmente, deixando-a assim desonrada e de volta à casa dos pais poucos meses depois. Ao longo do livro, vamos acompanhando então vários eventos da vida de Tess à medida que ela procura ultrapassar a dolorosa experiência que sofreu e seguir em frente com a sua vida, apesar das críticas e consequências desastrosas.
Em primeiro lugar, tenho de referir que este é, sem dúvida, um livro trágico e dramático, muito marcado pelo pessimismo que caracteriza as obras do autor. É triste e melancólico e, é inevitável, não sentirmos pena da Tess que é vítima de tanta tragédia e azar. Mesmo assim, acho que o escritor não criou apenas uma personagem passiva e sofredora. Para mim, Tess é uma mulher complexa, uma jovem ingénua e determinada, que conquista pela sua resiliência e vontade de não abdicar dos seus princípios mas que, ao mesmo tempo, é prejudicada pela sua teimosia, seu orgulho e sentimento (errado) de culpa.
Mais uma vez, as personagens de Thomas Hardy brilham e soam muito autênticas e imperfeitas. A sua caracterização de personagens é sublime e existiram vários momentos que me partiram o coração.
No entanto, aquilo que mais gostei no livro foi a forma como ele expõe a hipocrisia e dualidade de critérios com que a sociedade julgava as mulheres, questionando a moralidade victoriana e o seu ideal de uma mulher virtuosa. É um livro com reflexões bastante feministas e que retrata uma realidade que, infelizmente, não se alterou assim tanto. De realçar também que Hardy descreve a violação da Tess de uma forma bastante subtil, uma vez que, provavelmente, não podia ser mais explícito na época, mas mesmo assim é uma passagem impactante e que revela muita sensibilidade do autor.
É também um livro repleto de simbolismo, muito dele associado à natureza e religião, e aborda vários outros aspectos, tais como, os efeitos negativos da industrialização, o poder da reputação, a amizade entre mulheres e o poder do Destino.
Mais uma vez, o ponto mais negativo do livro é o seu ritmo e as suas descrições, por vezes, um pouco extensas. No entanto, neste livro o estilo naturalista do escritor cativou-me mais e foram raros os momentos em que senti a lentidão do livro.
Concluindo, este é um livro depressivo e fatalista, que retrata a difícil situação de uma mulher, que se encontra totalmente desamparada quando confrontada com a moral implacável da sociedade. Não é uma leitura fácil mas recomendo muito.
O livro encontra-se traduzido em Portugal e existe, pelo menos, uma edição da Relógio d'Água. 🌟🌟🌟🌟1/2
- adaptações -
Esta história já foi adaptada, inúmeras vezes, para o cinema, teatro e televisão. Eu resolvi ver duas das mais famosas: a série da BBC de 2008 e o filme de 1979 realizado por Polanski. Ficou por ver o filme para TV de 1998, protagonizado por Justine Waddell, que dizem que é também muito bom. Fica para outra oportunidade.
A série é protagonizada por Gemma Arterton enquanto Tess e conta ainda com Eddie Redmayne, Hans Matheson, Ruth Jones, entre outros. O argumento é da autoria de David Nicholls e é uma série composta por 4 episódios de 1 hora cada.
Eu gostei muito desta adaptação televisiva. De uma forma geral, é bastante fiel ao enredo original tanto em termos de história como de ambiente. Há temas que não são explorados tanto como deveriam ser mas, de uma forma geral, captura bem a essência do livro. Visualmente, é também uma série muito bonita.
Adorei a Gemma enquanto Tess pois conseguiu transmitir a força interna e a dor da personagem. É muito fácil torcer por ela. Não adorei a caracterização do Angel pois tornaram-no numa personagem mais simpatética e inocente do que é no livro. Percebo porque escolheram o Eddie Redmayne mas este não me convenceu a 100%.
Mesmo não sendo uma adaptação perfeita, é uma óptima série que recomendo. 🌟🌟🌟🌟
O filme é protagonizado por Nastassja Kinski enquanto Tess e conta com as interpretações de Peter Firth, Leigh Lawson, Sylvia Coleridge, entre outros. Foi realizado por Roman Polanski.
Este filme é considerado por muitos um clássico do cinema. Confesso que me desiludiu um pouco e acho que teria gostado mais dele se não tivesse lido o livro primeiro.
Em termos de história, o enredo do filme até segue bem os eventos do livro mas acho que, no fundo, acaba por não transmitir bem os temas e simbolismo do mesmo. A atmosfera é hipnótica mas, de certo modo, vazia de sentido.
No entanto, para mim, o pior problema é a caracterização da Tess e a sua relação com o Alec. A Tess do livro é teimosa, inteligente e lutadora que vai amadurecendo ao longo do tempo, enquanto que a Tess do filme é demasiado submissa e fraca. Sei que muitos adoram a Nastassja Kinski como Tess mas ela não me convenceu de todo. Achei-a demasiado passiva e desprovida de emoção.
Aqui ela cede facilmente a tudo enquanto que no livro ela é levada sempre ao desespero antes de desistir e isso é visível, sobretudo, na cena do abuso sexual. Detestei essa cena aqui! Também achei fraca a caracterização dos dois homens na vida de Tess.
Este é também um filme longo, com um ritmo algo calmo e lento, o que o tornou entediante em certos momentos. No entanto, tenho de realçar que visualmente este é realmente um filme maravilhoso! É um filme delicado, com paisagens soberbas e um guarda-roupa impressionante. Vale a pena ver nem que seja por esses aspectos.
Concluindo, é um filme competente, sobretudo em aspectos técnicos, mas que não me convenceu enquanto adaptação.
Foi realizado pelo Polanski em homenagem à sua mulher, Sharon Tate, que tinha sido assassinada uma década antes e que admirava a obra de Hardy e tinha sempre sonhado em interpretar o papel de Tess. No entanto, não deixa de ser desconfortável pensar nos paralelismos entre a história do filme e a vida pessoal do Polanski. 🌟🌟🌟
E vocês? Já leram o livro?
Ou viram alguma das adaptações?







