The Tenant of Wildfell Hall

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Hoje trago finalmente mais uma opinião de um livro. Venho falar-vos de The tenant of Wildfell Hall de Anne Brontë e da sua única adaptação disponível - a minissérie de 1996. Falo um pouco do que achei do livro e comparo/contrasto com a adaptação, tudo sem spoilers. Este foi um livro que li para o meu desafio #2019vitoriano e que, simplesmente, adorei.



- livro - 

The tenant of Wildfell HallA inquilina de Wildfell Hall em Portugal, foi publicado pela primeira vez em 1848, sob o pseudónimo de Acton Bell. Este foi o segundo livro que li da autora e também o segundo publicado por esta. O seu primeiro romance foi Agnes Grey, um livro que gostei de ler e que recomendo, mas, pessoalmente, considero A Inquilina a sua verdadeira obra-prima.
A história decorre em Inglaterra, no século XIX,  e inicialmente seguimos Gilbert, um jovem fazendeiro, que se apaixona por uma misteriosa viúva que se mudou para uma propriedade nas proximidades da sua casa – Wildfell Hall. Uma senhora sozinha, reservada, com um filho, a morar numa casa em decadência é algo que impressiona os vizinhos e rapidamente surgem rumores e boatos, nos quais Gilbert não acredita. No entanto, uma situação inesperada leva Gilbert a questionar a sua devoção e Helen resolve clarificar a situação, oferecendo-lhe o seu diário onde está descrita a sua vida.


Tinha altas expectativas para este livro e felizmente estas não foram defraudadas. É um excelente clássico que conquista pelas ideias que são abordadas e pela visão moderna da nossa protagonista.
Este foi muito mal recebido e criticado na época em que foi publicado pelo seu retrato honesto e realista do alcoolismo, adultério e violência doméstica, temas que eram considerados chocantes e vulgares para a audiência victoriana da altura. É um livro que gira essencialmente em torno da instituição do casamento e são apresentados vários casais e perspectivas de diferentes personagens em relação ao tema.
É inevitável não associar algumas personagens e eventos do livro à vida pessoal da escritora. Branwell Brontë, o seu irmão, foi tutor na mesma casa em que a Anne era preceptora e aí ele envolveu-se com a senhora da casa, que era casada. Quando o seu relacionamento foi descoberto, ele entrou numa espiral de depressão, alcoolismo e consumo de ópio. Tenho a certeza que muitas das suas experiências naquela casa e com o seu irmão serviram de inspiração para a Anne.


Gostei muito da protagonista pela sua determinação e força para superar as adversidades, bem como, pela sua luta por segurança e autonomia. É uma mulher com uma perspectiva moral muito forte o que, por vezes, a torna um pouco mais fria e altiva mas nem por isso deixou de me cativar. É uma protagonista imperfeita que vai crescendo e evoluindo ao longo da história. O resto das personagens possuem também muitas falhas o que as torna igualmente interessantes.
É também um livro feminista que defende a emancipação da mulher e que aborda muito as diferenças, que existiam na altura, entre os homens e mulheres na forma como eram educados e como a sociedade os via. Critica os homens que viam o casamento como salvação das suas vidas loucas e as mulheres que achavam que era nobre casar com homens com falhas porque elas conseguiriam mudá-los e "corrigir" os seus maus comportamentos. Foca-se em questões de maternidade, na falta de poder que as mulheres tinham nos casamentos, na visão tóxica do que é ser um "homem de verdade", vícios e salvação, entre outros temas igualmente pertinentes.


A estrutura da história é também algo bastante interessante. Inicialmente, temos a perspectiva de Gilbert através de cartas que ele escreve a um seu amigo e, depois, temos acesso à perspectiva da Helen através de passagens antigas do seu diário. Na minha opinião, ambas as partes estão bem construídas mas sinto que, em termos do enredo em si, faria mais sentido Helen ter contado o seu passado directamente a Gilbert e não através de cartas. De qualquer modo, senti-me envolvida em ambas as histórias e ambas as vozes me soaram características e autênticas. No final do livro, regressamos à perspectiva do Gilbert para o culminar da história.
Não é um livro perfeito para mim por causa do teor religioso mas isso é apenas uma mera implicação pessoal. Baseando-me nos livros que já li até agora, continuo a achar que de todas as irmãs, Anne é aquela que evidencia mais na sua obra a sua forte educação cristã e, apesar de não me identificar com alguns conceitos apresentados, acho que são bem explorados no livro e percebo o seu contexto.

Concluindo, este foi um livro que eu adorei ler e que se tornou num dos meus livros victorianos preferidos. Recomendo sobretudo a quem gosta de clássicos em que o mais importante são as ideias abordadas e não o romance. Existe uma edição em português da Europa-América. 🌟🌟🌟🌟🌟




- adaptação -

Este livro já foi adaptado duas vezes para televisão mas aquela que é mais conhecida e está mais acessível é a minissérie da BBC de 1996. Dama misteriosa conta com Tara Fitzgerald (Helen), Toby Stephens (Gilbert Markham), Rupert Graves (Huntingdon) e James Purefoy (Mr. Lawrence). Apesar de não ser uma má adaptação e de ser relativamente fiel ao livro, esta foi uma adaptação que não me conquistou totalmente.


Começando pelos pontos positivos, gostei muito das interpretações do duo masculino. Toby Stephens é sólido na sua interpretação de Markham e Rupert Graves é convincente enquanto o carismático e temperamental Huntingdon. Por outro lado, Tara Fitzgerald não me convenceu mesmo enquanto Helen...para mim foi demasiado fria e pouco expressiva e isso afectou negativamente a minha apreciação da série.
Possui um enredo bastante fiel à história do livro usando até várias citações da obra. A grande excepção é o final que foi de certo modo invertido e tenho de dizer que, pessoalmente, não desgostei desta alteração. Senti, no entanto, que três episódios foram pouco para explorar a história da Helen e, como tal, tudo soou muito apressado e simplificado. Gostava que nao tivessem ignorado praticamente todas as personagens secundárias.
Quanto à parte técnica, gostei da banda sonora e fotografia mas alguns moviementos de câmara não me agradaram tanto.
Concluindo, esta é uma minissérie sólida que eu recomendo a quem leu o livro mas sinto que não conquistará os espectadores por si só. Gostava que fosse mais envolvente. 🌟🌟🌟





E vocês? Já leram o livro?
Ou viram a adaptação?