Eugénie Grandet, Honoré de Balzac

terça-feira, 31 de janeiro de 2023


Em 2020, estreei-me na obra do escritor francês Honoré de Balzac, com a leitura do livro O Pai Goriot (opinião aqui). Como a experiência foi bastante positiva, decidi que este era um autor no qual queria continuar a investir e acabei por comprar, na altura, o Eugénie Grandet. Dois anos depois, decidi lê-lo e aqui estou eu, hoje, com a opinião de um livro que também me agradou bastante.

Publicado em 1833, Eugénie Grandet é uma das primeiras e mais famosas obras de A Comédia Humana, que é uma colecção de livros individuais, mas tematicamente interligados, escrita por Balzac com o objectivo de retratar toda a sociedade francesa da época. Esta é uma saga monumental composta por cerca de 95 obras, escritas entre 1829 e 1848, que está organizada em 3 tipos de estudos: costumes, analíticos e filosóficos. Dentro do Estudo de Costumes, existem várias colecções que são designadas de "cenas". Este livro encaixa-se nas "Cenas da vida provinciana".

A história decorre na pequena cidade francesa de Saumur, onde vive a família burguesa Grandet, durante a época da Restauração Francesa (1814-1830). O patriarca da família é Felix Grandet, produtor e comerciante de vinhos, ex-tanoeiro abastado que enriqueceu após a Revolução Francesa e com a herança de casamento da sua esposa. O Pai Grandet é um indivíduo extremamente avarento e individualista, que possui apenas uma única herdeira - Eugénie. A sua mão é disputada fortemente por dois representantes das famílias tradicionais locais, Cruchet e Des Grassins, e Monsieur Grandet vai jogando com a amizade de ambas para proveito próprio. No entanto, toda a dinâmica desta família, que apesar de ser rica vive de forma miserável, vai ser abalada com a chegada de Charles, o elegante primo parisiense e aristocrático.


A sinopse, por si só, parece indicar o início de um drama romântico, mas esse não é realmente o estilo de Balzac, que ficou mesmo conhecido como o fundador do realismo. De uma forma geral, o que este livro nos apresenta é um estudo da burguesia rural e uma crítica à ganância e à influência que o dinheiro exerce na vida e personalidade das pessoas. Há aqui, claramente, um embate entre dois mundos - o materialista do pai Grandet e o romântico de Eugénie - e o escritor apresenta-nos uma visão cínica, mas bastante verdadeira, do poder corruptor e, potencialmente destrutivo, do dinheiro.


Há claramente uma verdadeira preocupação em retratar, com pormenor, aspectos socioeconómicos da época e em expôr a natureza humana, de forma íntima, sem dissimulações. É também muito interessante como Balzac contrasta a ganância e a ambição da França rural em relação à de Paris. Nenhuma está moralmente correcta mas ambas são apresentadas de forma diferente.
Quanto à escrita, Balzac convenceu-me novamente com a sua prosa rica e vívida. É descritiva mas acessível e convida a uma leitura rápida. livro é curto, com cerca de 200 páginas, apresentando toques de tragédia e um final que me agradou bastante.


Balzac é exímio em criar personagens marcantes, de construção simples mas "maiores do que a vida", mesmo sendo algumas delas detestáveis. O Pai Grandet é uma personagem muito pragmática e intuitiva mas, ao mesmo tempo, muito mesquinha, egoísta e sem escrúpulos. Um verdadeiro tirano doméstico, ganancioso ao ponto de obcessão (lembra Scrooge do Dickens). A empregada Nanon é um verdadeiro tesouro e a jornada da inocente Eugénie é muito interessante de se acompanhar. Há claramente uma idolização excessiva da piedade das personagens femininas mas é algo próprio da época.

Concluindo, este é um livro que recomendo bastante, até para quem se quer iniciar na obra deste escritor. Já eu, quero continuar a investir em Balzac! 🌟🌟🌟🌟


E vocês? Já leram este livro 

ou outro do escritor?


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Sugestões de Inverno

sábado, 28 de janeiro de 2023

 

Hoje venho recomendar-vos 5 filmes, 4 livros e 3 séries de tv que eu acho que combinam muito bem com o Inverno. Dei preferência a ambientes frios e/ou com neve e histórias mais negras ou tristes.




Doctor Zhivago, 1965

O Doutor Jivago é um clássico do cinema que quase que dispensa apresentações. Baseado no livro com o mesmo nome, decore na Rússia e conta-nos a história de Yuri, um médico aristocrata que se apaixona por Lara, a mulher de um activista político. Apesar de ser um filme historicamente interessante, este é essencialmente um filme sobre o romance atribulado entre a Lara e o Yuri. As paisagens de Inverno são maravilhosas e a banda sonora é espectacular. Não irá agradar a todos pois é um filme longo e algo lento mas eu adoro-o ver nesta altura do ano.

Snowpiercer, 2013

Snowpiercer - expresso do amanhã é um filme de ficção científica  que decorre num futuro distante em que uma experiência científica para mudar o clima mata toda a população do planeta, excepto os passageiros do comboio Snowpiercer. Neste comboio, que viaja continuamente à volta do mundo, temos uma divisão de classes - trabalhadores na parte detrás e ricos na dianteira. Este é um filme de ficção científica que consegue misturar com sucesso várias cenas de acção e uma premissa inteligente e original. Chris Evans é um bom protagonista e a atmosfera pós-apocalíptica presente é negra e surreal.


Carol, 2015

Carol conta-nos a história do romance entre uma aspirante a fotógrafa (Rooney Mara) e uma dona-de-casa mais velha (Cate Blanchett) em Nova Iorque dos anos 50. O filme decorre no Inverno e Nova Iorque está repleta de neve. Visualmente, este filme é lindíssimo e todo o guarda-roupa e cenários conferem um encantamento especial ao filme. É um filme calmo e subtil que nos mostra uma relação proibida nos anos 50. Vale sobretudo pelas interpretações.


Eddie the eagle, 2016

Eddie, a águia é uma comédia biográfica sobre Eddie Edwards, um esquiador britânico que em 1988 foi o primeiro representante do Reino Unido nos Jogos Olímpicos de Inverno. Este é um filme despretencioso e aconchegante, um daqueles "feel good movie" que nos emociona e nos deixa com um sorriso na cara no seu final. Vale também a pena pela sua banda sonora e química entre Hugh Jackman e Taron Egerton.


Les Innocentes / Agnus Dei, 2016

As Inocentes é um filme baseado numa história real e decorre na Polónia, em 1945. Acompanha Mathilde, uma jovem médica da cruz vermelha, que se encontra numa missão para ajudar os sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. Quando uma freira lhe pede ajuda, esta apercebe-se que existem várias freiras grávidas, fruto da barbaridade dos soldados soviéticos. Incapazes de conciliar a fé com a gravidez, as freiras apoiam-se em Mathilde, a sua única esperança.
Este é um filme que consegue, através de um enredo relativamente simples, abordar várias temáticas, tais como, o impacto da guerra nos inocentes, a dificuldade de manter a fé perante todos os horrores da guerra, o lado negro do ser humano, a colisão do voto de castidade das freiras com uma situação de gravidez/maternidade indesejada, etc...As interpretações são bastante boas, principalmente as do trio principal. São interpretações sóbrias e emotivas, sem exageros, que soam bastante autênticas. 
É um filme com uma sensibilidade muito feminina, bastante introspectivo e com um ritmo lento que cativa pela atmosfera de medo, trauma e vergonha criada. Marca também pela cinematografia lindíssima (muita neve!), pelas reflexões que provoca e pelos longos silêncios criados.




Crime e Castigo de Dostoievksi, 1866
Este clássico conta a história de Raskólnikov, um estudante pobre e desesperado, que vagueia pelos bairros degradados de São Petersburgo e acaba por cometer um assassínio. Este imagina-se um grande homem, agindo por uma causa que está para além das convenções da lei moral e o coloca acima do comum dos mortais.  No entanto, quando inicia um jogo do gato e do rato com um polícia, Raskólnikov é cada vez mais perseguido pela voz da sua consciência. 
A sua atmosfera mais pesada e tom de humor negro combinam bem com estes dias mais frios de Inverno. O livro é verdadeiramente uma jornada emocional, na qual acompanhamos o protagonista que é uma "montanha-russa"; o seu humor, a maneira como ele lida com o crime e as próprias justificações que ele dá para este variam muito durante a história. Traz-nos uma reflexão aprofundada sobre o crime e uma forte compreensão da mente humana. Além disso, um calhamaço é sempre uma boa opção para esta estação.

Ethan Frome de Edith Wharton, 1911
Ethan Frome decorre na sombria e austera paisagem invernal da Nova Inglaterra, na cidade fictícia de Starkfield e é um livro sobre os infortúnios na vida e no amor da personagem que lhe dá o nome, Ethan, um homem triste e solitário. É um livro extremamente melancólico, trágico e bonito que capta os impulsos e as fraquezas da natureza humana, explorando de forma ousada as consequências que advêm do conflito entre o dever e o desejo.
Esta é uma novela curta mas poderosa, com cerca de 100 páginas, que se lê bem de uma só assentada.

Misery de Stephen King, 1987
Este clássico do aclamado escritor de livros de terror tem como protagonista Paul Sheldon, um famoso escritor de romances cor-de-rosa, que se tornou célebre graças à personagem principal das suas obras, Misery Chastain. Porém, Sheldon decide que está na hora de virar a página e decide «matar» Misery. É então que sofre um terrível acidente de viação e é socorrido por Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que o leva para sua casa para o tratar. O que Paul não sabe é que Annie, a sua salvadora, é também a sua maior fã, a mais fanática e obcecada de todas — e está furiosa com a morte de Misery. 
Não sendo a maior fã dos livros do autor, não hesito em recomendar este para o Inverno pois a sua atmosfera de tensão e o terror psicológico presentes adequam-se na perfeição a esta altura do ano. Além disso, a Annie é uma personagem marcante e impressionante. Não deixem de ver depois também a sua adaptação cinematográfica.

Heart's blood de Juliet Marillier, 2009
Contos de fada são sempre escolhas perfeitas para a altura do Inverno. Sangue-do-coração é uma reinterpretação do conto de A Bela e o Monstro e é fantástico como a autora consegue pegar num conto tão conhecido e torná-lo em algo diferente mantendo elementos chave do clássico. É uma história envolvente, repleta de fantasia e mistério, que aconchega nestes dias frios. É um bom sítio para começar com a autora, antes de mergulhar nas suas trilogias mais famosas e prestigiadas.





The Crimson Petal and the White, 2011
Esta é uma minissérie britânica, composta por quatro episódios, baseada no livro com o mesmo nome de Michel Faber. Decorre no final do séc. XIX, na Londres victoriana, e nós acompanhamos Sugar (Romola Garai), uma prostituta astuta, que quer melhorar o seu estilo de vida envolvendo-se assim com um rico e importante homem de família. É uma história que conquista, sobretudo, por não ter medo de retratar quão decadente era a sociedade victoriana da altura, quão marcada estava pela sujidade e doença. É um drama de época/period drama que aborda temáticas mais pesadas, tais como doenças mentais, sexualidade reprimida e prostituição, e tem uma atmosfera negra e sombria que se adequa mais a estes dias de Inverno.

A Young doctor's notebook, 2012-13
Diário de um jovem médico é uma série composta por duas temporadas, de 4 episódios cada, inspirada numa colecção de contos, com o mesmo nome, do escritor Bulgakov. Narra a história de um médico desapontado, Vladimir Bomgard (Jon Hamm), que, ao ler o seu caderno de anotações, vai relembrando o início da sua carreira numa vila no interior da Rússia, onde as pessoas ainda viviam como na Idade Média. Ao recordar "encontra" a sua versão mais nova e ingénua (Daniel Radcliffe).
Esta é, sem dúvida, uma comédia dramática e bastante negra. A acção decorre no interior frio e inóspito da Rússia, numa localidade onde a população é bastante supersticiosa e um pouco ignorante. É divertido ver as situações bizarras e, às vezes macabras, em que o jovem médico se vê envolvido e como os elementos do hospital não têm confiança nele devido ao seu aspecto jovem e inexperiência. Outro ponto marcante desta série é o facto do médico adulto ter conversas com o jovem médico. Ele é como uma "assombração" que tenta orientar o seu eu mais inexperiente e as suas conversas estão sempre cheias de humor sarcástico. Recomendo a quem gosta de humor bem negro e cenas às vezes tão disparatadas e grotescas que fazem rir. 

The Heavy water war / The Saboteurs, 2015
Esta é uma minissérie norueguesa, composta por 6 episódios, que decorre durante a II Guerra Mundial, num período em que a Alemanha estava a fazer grandes progressos na descoberta da bomba atómica. As Forças Aliadas decidem, então, sabotar uma fábrica norueguesa que era essencial na produção da bomba. Seguimos quatro perspectivas diferentes: a dos alemães, a dos aliados, dos membros e dono da fábrica norueguesa e a dos elementos que são enviados para sabotar a fábrica. 
As paisagens são certamente invernais, com muita neve e muitas montanhas. Historicamente, a série é muito interessante e aborda uma temática menos explorada. Tem um bom ritmo, boas interpretações e bons valores de produção.


E vocês? 
Quais as vossas sugestões de Inverno?


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«Elvis», «The Fabelmans» & «The Northman»

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Hoje trago as opiniões de mais três filmes que estrearam em 2022. Dois deles estão na corrida aos Óscares - Elvis & The Fabelmans - e o outro - The Northman - foi um que me surpreendeu pela positiva, apesar de não ser claramente um filme para todos.


realizado por  BAZ LUHRMANN   protagonizado por  AUSTIN BUTLER, TOM HANKS

O filme conta a história de Elvis Presley pelo prisma da complexa relação com o homem que o descobriu, o Coronel Tom Parker. Apresentador de atrações em feiras, Parker tornou-se o agente de Elvis durante mais de 20 anos. Foi esta enigmática figura, que nada sabia de música, o primeiro a ver o potencial de Elvis, fruto da infância entre afroamericanos no Mississipi onde absorveu a música que combinaria com os sons country preferidos da população branca.
"Elvis" é também o relato da rápida subida de Presley a um estrelato sem precedentes numa época de transição.


Elvis estreou no passado mês de Junho em Portugal mas só tive oportunidade de o ver recentemente através da plataforma da HBO. Apesar de não ter adorado o filme em todos os seus aspectos, acho que é uma boa homenagem ao Elvis Presley.
Eu tento partir para os filmes sem saber muito sobre a história em si e, como tal, eu desconhecia que esta era contada do ponto de vista do agente do Elvis e não do seu. Apesar de ter estranhado ao início, sinto que esta foi uma escolha inteligente pois, ao nunca termos acesso total aos pensamentos e sentimentos do Elvis, o filme consegue manter uma aura de mistério e magnetismo em torno deste grande ícone da música. A isso também ajuda a grande interpretação de Austin Butler que consegue recriar os maneirismos e tom de voz/cadência do artista sem cair na caricatura ou exagero. Ele é também o centro emocional deste filme, revelando ao mesmo tempo muita energia, presença e vulnerabilidade.
Claramente, este é um filme com o selo de Baz Luhrmann com o seu ritmo frenético, edição caótica, fotografia colorida, muito glamour e ostentação e, apesar de ser impressionante, acaba por se tornar cansativo e excessivo em alguns momentos. No entanto, acho que, neste caso, a sua visão combina muito bem com o próprio estilo do artista e faz com que esta não seja uma história biográfica típica (nem muito aprofundada).
Apesar de ter uma longa duração (160 minutos) e de ser uma história biográfica mais superficial, não deixa de ser um filme ousado e cativante que vale a pena ver. Gostava apenas que tivessem colocado sempre excertos maiores das canções do Elvis (sabiam-me sempre a pouco!). 🌟🌟🌟🌟



realizado por  STEVEN SPIELBERG   protagonizado por  GABRIEL LABELLE, PAUL DANO, MICHELLE WILLIAMS

Sammy Fabelman adora o cinema, um interesse celebrado e defendido pela sua mãe com veia artística, Mitzi. Mais adepto das ciências, Burt, o pai de Sammy, apoia o filho, mas vê o cinema como um passatempo pouco sério. Ao longo dos anos, Sammy torna-se o documentarista das aventuras da família e o realizador de produções cinematográficas amadoras cada vez mais elaboradas, protagonizadas pelas irmãs e por amigos.
Aos 16 anos, Sammy é, simultaneamente, o principal observador e arquivista da história familiar, mas quando se mudam para oeste, descobre um segredo da família que irá redefinir a sua relação com esta.


Os Fabelmans estreou no final do mês de Dezembro em Portugal e decidi vê-lo por ser o mais recente filme de Spielberg e, desta vez, com uma conotação algo autobiográfica. De forma geral, gosto dos filmes de Spielberg mas este acabou por não me convencer.
Custa-me ser negativa em relação a um filme tão pessoal para o realizador mas a verdade é que realmente não conectei de todo com este. Respeito o esforço do Spielberg e admito que o filme tem alguns bons momentos e é tecnicamente sólido, mas, enquanto um todo, este soou-me plano e a maioria das partes que deveriam ser cativantes e comoventes pareceram-me falsas e pouco autênticas. O filme até começa bem mas foi perdendo gás ao longo do tempo, apresentando um ritmo irregular e tendo uma duração excessiva (2h30). No entanto, tenho de referir que foi engraçado ver ao longo da história as pequenas referências aos vários filmes da carreira do realizador.
Como o próprio nome da família indica, esta é uma fábula que oscila um pouco entre a fantasia e realidade, isto é, entre a perspectiva do protagonista (memória do realizador), que vai crescendo ao longo do filme, e os factos reais. O protagonista processa os seus problemas familiares e sociais através dos pequenos projectos cinematográficos que realiza e, deste modo, o objectivo do filme é funcionar como um drama familiar e uma carta de amor ao cinema ao mesmo tempo. A verdade é que, para mim, acabou por nunca ser brilhante ou interessante em nenhuma dessas facetas, mas sim um pouco genérico.
Acho que aquilo que também não me ajudou a conectar com o filme foram as suas interpretações. Gabriel LaBelle está bem enquanto o jovem Sammy, mas nada de extraordinário. Paul Dano, que geralmente aprecio imenso, acaba por ser sólido mas um pouco banal até (deveria ter tido mais presença no filme). Já da interpretação de Michelle Williams não gostei nada. Achei-a extremamente dramática e exagerada demais, nada autêntica. Como ela nunca me convenceu foi difícil sentir algum tipo de ligação com ela e com a relação mãe-filho.
Concluindo, este é um filme do qual queria gostar mais mas, realmente, esta jornada sentimental não foi para mim. 🌟🌟1/2



realizado por  ROBERT EGGERS   protagonizado por  ALEXANDER SKARSGARD, ANYA TAYLOR-JOY, NICOLE KIDMAN

Durante a viragem do século X, na Islândia, o jovem príncipe Amleth está à beira de se tornar um homem quando o pai é brutalmente assassinado pelo tio, que rapta a mãe do rapaz. Fugindo do seu reino insular por barco, jura vingança.
Duas décadas mais tarde, Amleth é um viking berserker que invade aldeias eslavas. Num desses lugares, uma vidente recorda-o do seu voto: vingar o pai, salvar a mãe, matar o tio. Viajando num navio de escravos para a Islândia, Amleth infiltra-se na quinta do seu tio com a ajuda de Olga, uma mulher eslava.


O Homem do Norte estreou no passado mês de Abril em Portugal e é o terceiro filme (e provavelmente o mais ambicioso) do realizador Robert Eggers. Eu adorei o primeiro filme dele The Witch (2015) e também fiquei bastante impressionada com o The Lighthouse (2019). Os seus filmes distinguem-se pelo seu foco no folclore e numa autêntica recriação histórica, algo que me agrada bastante, e portanto não podia deixar escapar este. Ao contrário dos dois anteriores, este não é um filme de terror mas sim um épico histórico, que não se coíbe de mostrar a brutalidade e violência da época.
Tal como já é habitual nestes filmes, a fotografia, guarda-roupa e cenários estão impecáveis e bem fiéis à temática viking do filme. É um épico de vingança, que ilustra magnificamente a cultura nórdica, e que é visualmente impressionante e único. De notar que a história em si não é propriamente original - é baseada numa lenda da Escandinávia que serviu de inspiração para o Hamlet de Shakespeare - nem as personagens em si são muito aprofundadas. O ritmo em si é também um pouco inconstante.
Graças ao seu maior orçamento, este filme acaba por ter mais cenas de acção que os anteriores e focar-se menos nas introspecções das personagens. No entanto, isso não quer dizer que este seja um filme de acção ou um épico de aventuras, como muitos esperavam certamente. Esse não é o estilo do realizador que mais uma vez nos traz uma abordagem mais poética e que se foca na recriação do período histórico e misticismo. De certo modo, até gostava que o realizador tivesse tido mais liberdade para se focar menos nas cenas de luta e mais em todo o folclore e mitologia.
Claramente, este não é um filme para toda a gente uma vez que acaba por se focar mais na técnica do que na substância, o que nem sempre resulta comigo também, mas a verdade é que ele acabou por me fascinar. Ao ver este filme senti que estava a ler um épico da mitologia nórdica e essa foi, para mim, a sua grande mais-valia. 🌟🌟🌟🌟


E vocês?

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15 filmes que quero ver em 2023

domingo, 22 de janeiro de 2023

Hoje trago uma publicação típica de início de novo ano. Venho falar de 15 filmes que vão estrear nas salas de cinema portuguesas em 2023 e que me despertam alguma curiosidade. Acredito que ao longo do ano novos interesses surgirão mas, por enquanto, dos que já têm data de estreia marcada, estes são os que me chamam mais a atenção.



realizado por HIROKAZU KORE-EDA   protagonizado por  SONG KANG-HO, BAE DOONA
 estreia 5 JANEIRO
Sang-hyun é dono uma lavandaria, mas vive permanentemente endividado. Dong-soo, cresceu num orfanato e trabalha numa associação que acolhe bebés abandonados, deixados numa caixa criada para esse fim. Uma noite, debaixo de chuva torrencial, levam secretamente um bebé depositado na Caixa dos Bebés. No dia seguinte, So-young, a mãe, regressa inesperadamente para recuperar o filho Woo-sung.
Ao perceber que o bebé desapareceu, prepara-se para chamar a polícia, quando os dois homens lhe contam tudo. A alegação de que roubaram o bebé para lhe arranjar um bom lar parece inadmissível, mas So-young acaba por se juntar a Sang-hyun e a Dong-soo numa aventura para encontrar pais para Woo-sung.



realizado por CHARLOTTE WELLS   protagonizado por  PAUL MESCAL, FRANKIE CORIO
 estreia 26 JANEIRO
Sophie, de 11 anos, passa as férias de Verão na Turquia com o seu pai amoroso e idealista. Vinte anos depois, recorda a experiência e reflecte sobre a sua relação - e as partes dele que não foi capaz de conhecer.



realizado por MARTIN MCDONAGH   protagonizado por  COLIN FARRELL, BRENDAN GLEESON, KERRY CONDON, BARRY KEOGHAN
 estreia 2 FEVEREIRO
Passado nos anos de 1920, numa ilha remota ao largo da costa ocidental da Irlanda, o filme acompanha dois amigos de longa data, Pádraic e Colm, a partir do momento em que Colm põe inesperadamente fim à amizade. Um Pádraic atordoado, tenta reparar a relação com o auxílio da irmã, Siobhán, e do jovem Dominic. Mas os esforços repetidos de Pádraic apenas reforçam a determinação do seu antigo amigo e quando Colm lança um desesperado ultimato, os acontecimentos depressa assumem maior gravidade com alarmantes consequências.



realizado por TODD FIELD   protagonizado por  CATE BLANCHETT, NINA HOSS, MARK STRONG
 estreia 9 FEVEREIRO
A maestrina Lydia Tár, a primeira mulher a dirigir uma grande orquestra alemã, está a poucos dias de gravar a sinfonia que impulsionará ainda mais a sua já formidável carreira. Quando alguém parece conspirar contra ela, a jovem Petra, a brilhante e encantadora filha adoptiva de seis anos de Lydia, assume um papel decisivo no apoio emocional à mãe em dificuldades.



realizado por CHINONYNE CHUKWU   protagonizado por  DANIELLE DEADWYLER
 estreia 16 FEVEREIRO
A verdadeira história da incansável busca por justiça de Mamie Till Mobley que, em 1955, viu o filho de 14 anos, Emmett Till, linchado enquanto visitava os primos no Mississippi.



realizado por DARREN ARRONOFSKY   protagonizado por  BRENDAN FRASER, SADIE SINK
 estreia 2 MARÇO
Num apartamento degradado no Idaho rural, rodeado de ecrãs e caixas de comida, um homem com mais de 200 quilos chamado Charlie come obstinada e determinadamente até à morte. À medida que o inevitável se aproxima, a sua amiga Liz, uma enfermeira ateia cínica, e Thomas, um jovem e esperançoso missionário mórmon, tentam encontrar em Charlie a vontade de ser salvo, física e espiritualmente. Contudo, só a amarga Ellie, a filha adolescente de Charlie, o pode fazer ver qualquer tipo de futuro para além do seu desespero actual.



realizado por SARAH POLLEY   protagonizado por  ROONEY MARA, CLAIRE FOY, BEN WHISHAW, JESSIE BUCKLEY
 estreia 9 MARÇO
Um grupo de mulheres numa comunidade religiosa menonita isolada na Bolívia luta para reconciliar a sua fé com uma série de agressões sexuais cometidas pelos homens da colónia.



realizado por OLIVER HERMANUS   protagonizado por  BILL NIGHY, AIMEE LOU WOOD
 estreia 9 MARÇO
1953. Uma Londres despedaçada pela II Guerra Mundial tenta ainda recuperar. Williams, um experiente funcionário público, é uma engrenagem impotente dentro da burocracia da cidade. Enterrado sob papelada no escritório, solitário em casa, há muito sente a sua vida vazia e sem sentido. De repente, um diagnóstico médico obriga-o a fazer um balanço e sentir que viveu a vida antes que ela termine.



realizado por BRYAN WOODS, SCOTT BECK   protagonizado por  ADAM DRIVER, ADRIANA GREENBLATT
 estreia 16 MARÇO
Um astronauta despenha-se num planeta misterioso e descobre que não está sozinho.



realizado por JONATHAN GOLDSTEIN, JOHN FRANCIS DALEY   protagonizado por  CHRIS PINE, HUGH GRANT, MICHELLE RODRIGUEZ
 estreia 30 MARÇO
Um ladrão cheio de charme e um bando de improváveis aventureiros preparam um assalto épico para recuperar uma relíquia perdida, mas tudo se complica ao entrarem em conflito com as pessoas erradas.



realizado por FRANCES O'CONNOR   protagonizado por  EMMA MACKEY
 estreia 6 ABRIL
Emily Brönte é uma rebelde desajustada em busca de voz enquanto escreve o futuro clássico da literatura "Monte dos Vendavais". O filme explora as relações que inspiraram Emily – a relação impulsiva e apaixonada com as irmãs Charlotte e Anne, o primeiro e sofrido amor por Weightman, e a preocupação que dedica ao rebelde e idolatrado irmão Branwell.



realizado por ARI  ASTER   protagonizado por  JOAQUIN PHOENIX
 estreia 24 ABRIL
Retrato íntimo que atravessa décadas na vida de um dos empresários mais bem sucedidos de todos os tempos.



realizado por CHRISTOPHER MCQUARRIE   protagonizado por  TOM CRUISE, REBECCA FERGUSON, SIMON PEGG
 estreia 13 JULHO



realizado por CHRISTOPHER NOLAN   protagonizado por  CILLIAN MURPHY, EMILY BLUNT, MATT DAMON, FLORENCE PUGH
 estreia 20 JULHO
A história do envolvimento de J. Robert Oppenheimer na criação da bomba atómica durante a Segunda Guerra Mundial.



realizado por DENNIS VILLENEUVE   protagonizado por  TIMOTHY CHALAMET, REBECCA FERGUSON, ZENDAYA, FLORENCE PUGH
 estreia 2 NOVEMBRO



E vocês?
Que filmes não querem perder em 2023?

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O décimo terceiro conto, Diane Setterfield

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Sou uma grande fã de literatura gótica e tenho tentado cada vez mais me debruçar sobre este estilo escrito por autores contemporâneos. Foi assim que surgiu o meu interesse por este livro que, à partida, parecia ter todos os elementos necessários - sensibilidade victoriana, carta de amor aos livros, relações intensas e mistérios góticos - e críticas positivas para me arrebatar. De facto, esta acabou por se revelar uma leitura fluida que apreciei bastante apesar de menos do que estava à espera.


Publicado em 2006, The Thirteenth Tale, de Diane Setterfield, narra a história em paralelo de duas mulheres de gerações diferentes: Margaret, uma jovem introvertida, filha de um alfarrabista e biógrafa amadora, e Vida Winter, uma escritora prolífica que, ao longo da sua carreira, sempre se mostrou relutante em falar sobre a sua vida.

O livro tem início com Margaret que recebe uma carta de Miss Winter a convidá-la para escrever a sua biografia, uma vez que a aproximação do final dos seus dias levou-a a considerar que chegou finalmente a altura de revelar o seu passado. Este é um convite inesperado ao qual Margaret inicialmente resiste, mas um que ela acaba por aceitar e que a leva até Yorkshire, à casa onde Vida reside e onde vai passar uma temporada escutando o relato da sua vida misteriosa.



Este é um livro que funciona então como uma história dentro de uma história. Ao mesmo tempo que vamos tendo acesso ao passado de Miss Winter e descobrindo os seus segredos e relações intensas, vamos acompanhando também Margaret no presente enquanto esta lida com os seus próprios fantasmas e procura pistas sobre o passado.


Esta é uma técnica narrativa que geralmente aprecio muito mas que, neste caso, talvez tenha sido o que me fez gostar menos do livro. Por um lado, gostei de conhecer a história de Miss Vida, que está repleta das convenções típicas do género gótico - complexas dinâmicas familiares, uma mansão antiga em declínio, personagens quebradas, loucura e violência, solidão e misticismo, mistérios e segredos - , e a personagem em si é interessante e enigmática. Por outro, nunca me senti imersa nos eventos do presente e, pessoalmente, custou-me a empatizar com Margaret e com o seu trauma/obsessão que é suposto estabelecer um paralelismo com Vida Winter. Apesar de apreciar muito (e partilhar com ela) o seu gosto literário e amor pelos livros, ela possui também um certo nível de snobismo e apatia que me levaram a não me importar muito com o desenrolar da sua história.



Sinto que também não conectei totalmente com a escrita da autora. Esta é acessível e elegante mas não a achei evocativa o suficiente. Aquilo que mais adoro na literatura gótica é a atmosfera opressiva e misteriosa que se cria, e que muitas vezes transcende até as próprias personagens, e sinto que esta não foi tão bem executada neste livro. No entanto, fiquei com a sensação que este é um livro que deveria ter lido na sua língua original.


Concluindo, este é também um livro sobre o poder das histórias e que apela muito aos apaixonados dos livros - ambas as mulheres são amantes de literatura, sendo este amor visível em várias bonitas passagens do livro. O décimo terceiro conto está também repleto de referências literárias e há vários momentos em que claramente nos faz lembrar de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais.


De uma forma geral, gostei muito do enredo em si e da sua forte revelação final, apesar desta não ter sido totalmente inesperada. É um livro acessível, com uma narrativa fluida, que acredito que será apelativa para os amantes de livros e de histórias góticas. Gostava de ter sido mais arrebatada por ele, mas foi na mesma uma leitura agradável. 🌟🌟🌟1/2



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