Vanity Fair

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Hoje trago finalmente a opinião da minha leitura de Outubro - Vanity fair de William Makepeace Thackeray - e de duas das suas mais recentes adaptações - o filme de 2004 e a minisérie de 2018. Falo um pouco do que achei do livro e comparo/contrasto as duas adaptações, tudo sem spoilers.


- livro -

Vanity Fair, Feira das vaidades em Portugal, foi publicado pela primeira vez entre 1847 e 1848, como uma série mensal de 19 capítulos, e em 1848 foi publicado num volume único com o subtítulo de A novel without a hero. É a obra mais famosa deste escritor victoriano e é um calhamaço com quase 900 páginas. 
A história decorre em Inglaterra, antes e durante as Guerras Napoleónicas. Enquanto que centenas de milhares de pessoas morriam nos campos de batalha, a classe alta de Londres continuava feliz e a não abdicar dos seus excessos e loucuras. Vamos acompanhar então a narrativa da história das vidas entrelaçadas de Becky Sharp e Amelia Sedley, duas amigas que foram educadas na escola de Miss Pinkerton. Amelia Sedley, que é quase a personificação da inocência pura, pertence a uma família da burguesia endinheirada e está noiva de um jovem igualmente abastado. Por contraste, Becky Sharp é uma orfã ambiciosa, sem quaisquer rendimentos e perspectivas, mas que sonha subir na escala social.


Algo que distingue este livro dos demais livros victorianos é a voz do narrador, que é o próprio escritor do livro. Este dirige-se directamente ao leitor, dando a conhecer o que acha das situações e ambiente, nunca se inibindo de criticar duramente as suas personagens. Ele enquadra a história como se de uma espéctaculo de marionetas se tratasse, em que as personagens são apenas seus fantoches. É, sem dúvida, uma sátira com uma visão bastante cínica e, por vezes, cruel que acaba por desagradar e afastar alguns leitores, mas que eu achei deliciosa.
Há também, sem dúvida, uma crítica sagaz à sociedade victoriana e um retrato bem realista da decadência e arrogância da alta sociedade londrina. O mais interessante é que esta crítica continua a ser actual e podia muito bem ser aplicada aos dias de hoje visto que a nossa época continua a ser marcada pelas falsas aparências e moralidade.


Tal como o subtítulo nos dá a entender, esta é uma "novela sem heróis" visto que todas as personagens são, no fundo, bastante imperfeitas e desagradáveis. Eu gostei muito desta escolha do autor, em realçar as partes mais sombrias das personagens, pois tornou-as mais interessante. Aliás, a galeria de personagens é um dos pontos fortes do livro e, apesar dos seus atributos negativos, foi inevitável não me apegar a algumas delas. Gostei muito do Dobbin, da Miss Crawley e do Rawdon Crawley mas a minha favorita foi, claro, a Becky Sharp. A Becky é uma mulher ambiciosa, sedutora e manipuladora, que tem algumas atitudes bem desprezíveis ao longo do livro, mas que tenho de admirar pela sua determinação, resiliência e coragem. 
Como já disse, o livro é bem longo e demorei praticamente um mês para o terminar (li-o calmamente), mas foi uma leitura acessível e fluida. Sem dúvida que há algumas partes em que o escritor divaga um pouco mas nada de muito exagerado.

Concluindo, este é um livro que sei que não vai agradar a toda a gente e que não recomendo para se iniciarem nos livros victorianos, mas que eu gostei bastante e que me marcou. O livro encontra-se traduzido em Portugal e existe, pelo menos, uma edição da Book it. 🌟🌟🌟🌟1/2



- adaptações -

Este livro já foi adaptado cerca de 5 vezes para o cinema mas eu vi apenas duas das suas mais recentes adaptações: o filme de 2004 e a minisérie deste ano. Nenhuma delas é uma excelente adaptação, apresentando ambas uma visão da Becky Sharp muito mais positiva do que a do livro. A série apresenta um enredo muito mais fiel ao da obra mas gosto mais do elenco do filme. Além disso, nenhuma delas foi ousada o suficiente para manter o final, o que foi uma pena. Pelo que li, existe uma série da BBC de 1998 que é considerada a mais fiel à obra e que eu conto ver nalgum dia.


O filme é protagonizado por Reese Witherspoon enquanto Becky Sharp e apresenta o seguinte elenco: James Purefoy (Rawdon Crawley), Romola Garai (Amelia), Rhys Ifans (Dobbin), Jonathan Rhys Meyers (George Osborne), Gabriel Bryne (Marquês de Steyne), entre outros. É realizado por Mira Nair e conta com 2 horas e 20 minutos de duração. Este era um filme que eu já tinha apanhado a dar na televisão antes e visto algumas partes, mas nunca tinha assistido do princípio ao fim.


Para mim, o ponto forte desta adaptação é o seu elenco. Para além de termos aqui óptimos actores, eles soaram-me muito semelhantes às personagens do livro e convenceram-me totalmente. Adorei o James Purefoy enquanto Rawdon Crawley e o Tony Maudsley enquanto Joseph Sedley. Para mim, a Reese Witherspoon é uma excelente Becky porque ela consegue ser manipuladora e sedutora de forma natural e encantadora, tal como a personagem no livro. No entanto, gostava que não tivessem optado por suavizar a sua personagem, especialmente no que diz respeito à sua relação com o filho e à famosa cena que leva à sua "queda social".
Apesar do enredo não ser totalmente fiel à obra, de um modo geral, os principais pontos do livro estão lá e fazem sentido. Gostei também da fotografia colorida e do exuberante guarda-roupa.
Uma vez que a realizadora é indiana, ela procurou inserir alguns elementos culturais indianos de modo a reflectir o impacto da colonização da Índia pela Inglaterra na altura. Para mim, alguns elementos funcionaram e deram alguma personalidade ao filme, e outros soaram descabidos e forçados. Como principais pontos negativos, tenho de destacar o final e a forma como inseriram o marquês de Steyne nesta adaptação. Acho também que deram pouca importância ao percurso da Amelia no filme mas compreendo que devido ao tempo limitado tenham optado por se focar na Becky.
Mesmo não sendo uma adaptação perfeita, é um bom filme de época que se vê bem. 🌟🌟🌟



Esta série estreou em Setembro e é constituída por 7 episódios de cerca de 45 minutos. É uma série da ITV e Amazon Studios, e conta com a Olivia Cooke como Becky Sharp. O resto do elenco é constituído por Tom Bateman (Rawdon), Johnny Flynn (Dobbin), Claudia Jessie (Amelia), Charlie Rowe (George), entre outros. A estreia desta série, juntamente com o #victober, foi aquilo que me motivou a pegar no livro e confesso que esta acabou por me desiludir um pouco.


Em primeiro lugar, tenho de confessar que aquilo que menos gostei nesta série foi a Olivia Cooke enquanto Becky. Ao contrário da maioria da crítica, eu não gostei da sua interpretação...soou-me sempre forçada, artificial, pouco carismática e encantadora. Não me convenceu! Talvez pelo facto de nunca ter acredito na interpretação da Olivia enquanto Becky, acabei por nunca me conectar com a série em si.
Quanto ao resto do elenco, houve escolhas acertadas e outras também que não convenceram. De um modo geral, os actores que interpretam o "trio romântico" foram competentes, mas não me arrebataram, e detestei a interpretação do David Fynn enquanto Jos Sedley (eu percebo a caricatura mas mesmo assim...). A única interpretação que adorei mesmo foi a do Tom Bateman enquanto Rawdon e fiquei curiosa para o ver em mais papéis.
O tom vai mais de encontro ao tom corrosivo e satírico do livro, apesar de nem sempre ser bem sucedido nalgumas das suas escolhas. Algo que, para mim, resultou foram as cenas de abertura com o Michael Palin, enquanto Thackeray, a recapitular o episódio anterior, e o carroussel a aludir à temática do livro. Aquilo que acho que não foi executado tão bem foram os olhares da Becky para a câmara e o tom mais moderno.
Apesar de ser bem mais fiel ao enredo do livro houve alguns saltos temporais dos quais não gostei tanto. Mesmo assim, um dos pontos fortes da série é manter-se fiel ao espírito e linha condutora da obra original. Gostei também da fotografia, cenários e das recriações da batalha de Waterloo, que é um evento importantíssimo no livro.
Concluindo, é uma adaptação bastante competente mas que não me prendeu a atenção como eu gostaria. 🌟🌟🌟




E vocês? Já leram o livro?
Ou viram alguma das adaptações?