Noirvember '18 | o que vi e top 3

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018


Como já referi inúmeras vezes, o meu desafio cinematográfico de Novembro foi o #noirvember. Vi vários filmes noir e hoje venho então fazer o balanço!

Inicialmente, tinha estipulado a meta de 8 filmes mas acabei por ultrapassá-la e vi 9 filmes. Não vou falar em profundidade de todos eles mas vou tecer pequenos comentários em relação a 6, aos quais dei todos 3 estrelas, e destacar os meus 3 preferidos.


  • The woman in window / Suprema decisão (1944): Esta foi a minha estreia com Fritz Lang e gostei do filme. É talvez um pouco previsível demais mas compensa com o ritmo, escalar da tensão e interpretação do Edward G. Robinson.
  • Ossessione / Obsessão (1943): este filme italiano é o primeiro do conceituado realizador Luchino Visconti. É realmente um filme que, para mim, tem algumas falhas (especialmente a nível de ritmo) mas que já faz antever as capacidades e estilo do realizador. Gostei do retrato realístico da probreza, do conflito entre paixão/consciência moral e estabilidade/liberdade. Não adorei as representações e realmente acho que se nota o impacto da censura italiana na edição do filme. De qualquer modo gostei bastante da história em si e por isso conto ver no futuro a versão americana clássica que também é muito conhecida - The postman always rings twice (1946).
  • The asphalt jungle / Quando a cidade dorme (1950): Não sei bem porquê mas o Sterling Hayden nunca me convence enquanto protagonista e, como tal, acabei por nunca me conectar totalmente com o filme. Gostei da preocupação em mostrar os criminosos como pessoas comuns e o impacto do acaso no sucesso dos seus planos. O melhor do filme, para mim, foi a personagem e interpretação do Sam Jaffe.
  • Pickup on South street / Mãos perigosas (1953): este foi um filme que esteve quase para entrar para o meu top. No entanto, não adorei o protagonista em si nem muitas das suas motivações. Achei interessante a natureza diferente do crime e dos criminosos deste filme pois não são tão frequentes nos filmes noir. Para mim, o ponto forte deste filme são as duas personagens femininas, especialmente, a Moe com a interpretação da Thelma Ritter.
  • Kiss me deadly / O beijo fatal (1955): este é um noir estranho. É essencialmente um mistério em que o protagonista e a audiência vão descobrindo ao mesmo tempo o que se está a passar. Gostei do desenrolar dos acontecimentos mas não adorei todas as interpretações, especialmente a da Lily ( Gaby Rodgers). O final acaba por ser surpreendente e conduz-nos a uma mistura de géneros que não esperava.
  • Criss Cross / Dupla traição (1949): este é um típico filme noir que mistura narrativa na primeira pessoa com sequências de flasback. Temos o aspecto fatalista, as traições e o amor louco que condena os nossos protagonistas. Não sendo especialmente inovador, foi um filme que gostei de ver. Tem o Burt Lancaster que é sempre um ponto positivo na minha opinião.
De seguida, falo um pouco dos meus 3 preferidos da lista, por ordem crescente:


- TOP 3 -

Filhos da noite é um filme que decorre durante os anos da Depressão americana e que tem como protagonista Bowie (Farley Granger), um jovem que foge da prisão com ajuda de dois homens. Este quer provar a sua inocência e viver em paz com a jovem pela qual ele se apaixona, Keechie (Cathy O' Donnell), mas é convencido pelos seus colegas de cela a ajudá-los numa série de crimes, que o levam a ser considerado pela polícia como o líder do gangue.
Este foi o primeiro filme de Nicholas Ray, mais conhecido pelo filme Rebel without a cause com James Dean, e um bom exemplo do género lovers on the run, com os nossos protagonistas jovens e inocentes a tentarem fugir do mundo que os rodeia. Apesar do senso comum de Keechie, é visível desde o início que a ingenuidade de Bowie irá condenar esta relação. Adorei as interpretações do duo principal e a melancolia que permeia todo o filme. O filme tem tanto de noir como de romance, o que não me desagradou, apesar de ter alguns momentos mais melodramáticos.
Apesar de não ser o melhor filme do subgénero, foi um filme que gostei muito de ver. 🌟🌟🌟1/2



Amar foi a minha perdição conta a história do escritor Richard Harland (Cornel Wilde) que conhece a socialite Ellen Berent (Gene Tierney) num comboio a caminho de New Mexico. A atracção entre os dois é imediata e, mesmo estando noiva de um influente político (Vincent Price), eles casam-se rapidamente. No entanto, depois do casamento ele começa a aperceber-se da faceta demasiado possessiva de Ellen.
O melhor do filme é, sem dúvida, a interpretação de Gene Tierney que está fantástica. Para além de estar lindíssima, ela consegue transmitir bem toda a intensidade emocional e carisma da personagem. A história em si é também muito cativante e o resto das interpretações são também competentes. De destacar também a lindíssima fotografia e os cenários, especialmente as cenas no lago. Apesar de o final ser um pouco anti-climático, compreendo que era possivelmente o único permitido na época. 
Recomendo sem dúvida para quem quer ver um outro bom filme de Gene Tieney, para além do Laura, e para quem quer ver um noir sem ser a preto e branco. 🌟🌟🌟🌟



Du rififi chez les hommes, Rififi em Portugal, é um filme francês que conta a história de um quarteto de criminosos que se juntam para desenvolver um assalto que parecia aparentemente impossível a uma joalharia de Paris. Este é realizado por Jules Dassin, que ficou conhecido por ter realizado alguns noirs americanos, tais como, The naked city e The night & the city. Este foi realizado em França depois de ele ter abandonado os USA por ter entrado na "lista negra" de Hollywood pela sua suposta ligação ao comunismo. 
Temos aqui um ambiente bastante negro, marcado pelo crime, sonhos desfeitos e pessimismo, que é sobretudo reflectido na atitude do nosso protagonista. Jean Servais convence totalmente enquanto o cansado Tony le Stéphanois; ele transmite bem toda a tristeza e desencantamento do gangster de meia-idade que é uma sombra do que já foi. Gostei também do facto de todos os elementos do grupo terem personalidades próprias e problemas/motivações pessoais. É engraçado o facto do próprio realizador interpretar um dos assaltantes - o italiano César - e protagonizar uma das cenas mais tristes e importantes do filme.
É inevitável não pensar ao ver o filme que este se tornou o arquétipo dos filmes de heist, e que serviu de inspiração para muitos filmes do género, tais como, por exemplo, Ocean 11, etc. Seria de esperar que, com o desenvolvimento da tecnologia e ferramentas de hoje em dia, que o assalto soasse banal e aborrecido mas não é o caso de todo! A sequência do assalto, que dura cerca de meia hora, decorre totalmente sem diálogos e banda sonora, e a tensão é palpável. Esta cena é apenas um exemplo de toda a perícia e técnica do realizador, que são visíveis ao longo do filme. As cenas exteriores são também extremamente envolventes e facilmente somos transportados para a Paris da época.
Há um aspecto ou outro que não envelheceu tão bem, mas fora isso, este é um filme excelente e um essencial do cinema. Tenho a certeza que com o tempo e mais visualizações, o filme chegará às 5 estrelas para mim. 🌟🌟🌟🌟1/2



E vocês? Já viram algum destes filmes?