«The bloody chamber» & «As coisas que perdemos no fogo»

terça-feira, 11 de abril de 2023


Estou de volta com mais algumas "opiniões perdidas". Desta vez, trago a opinião de dois livros de contos, um lido em 2018 e outro em 2020. Ambos têm toques de fantasia e horror.


The bloody chamber é um livro constituído por 10 contos, todos eles reimaginações de contos de fadas bastante conhecidos, tais como, O capuchinho vermelho e A Bela e o Monstro. São contos de tamanho diversificado, variando desde aqueles com apenas uma folha até aqueles com cerca de 20, mas todos eles são versões mais negras e sexualizadas do que os originais.

Esta foi a primeira obra que li de Angela Carter e, claramente, um dos destaques deste livro para mim foi a sua escrita sensual, sofisticada e rica. De uma forma muitas vezes metafórica e descritiva, ela apresenta histórias focadas em protagonistas fortes e temáticas muito femininas...histórias sobre sexualidade, violência, despertar sexual, balanço do poder no casamento, objectificação feminina, etc... Sem dúvida, que nos seus contos há um forte contraste entre a sociedade repressiva e tradicional, típica dos contos de fadas, e as protagonistas oprimidas que procuram libertação e uma identidade pessoal.
No entanto, como é frequente com as antologias, acabei por não adorar todos os contos presentes e isso acabou por afectar a classificação final. Acredito que todos eles possuem significados mais profundos do que parece à primeira vista (e leitura) mas realmente alguns acabaram por não me marcar e arrebatar durante a leitura. De seguida, comento brevemente cada um dos contos apresentados:
  • The bloody chamber (inspirado no conto "Barba azul"): este é o maior conto do livro e o meu preferido sem dúvida; explora temáticas como a objectificação da mulher e o papel da virgindade; é o conto com mais tensão e com um dos desfechos mais satisfatórios;
  • The courtship of Mr. Lyon (inspirado no conto "A bela e o monstro"): um dos dois contos inspirados na "A bela e o monstro" e o meu preferido dos dois; é um dos contos que faz um melhor uso do realismo mágico, misturando um cenário mais moderno com elementos mais fantásticos;
  • The tiger's bride (inspirado no conto "A bela e o monstro"): um conto mais focado na bestialidade e no poder da metamorfose do que o primeiro; confesso que, apesar de ter compreendido muito do simbolismo oculto, achei-o demasiado metafórico;
  • Puss-in-boots (inspirado no conto "O gato das botas"): o conto mais leve do livro; este foi também um dos meus preferidos pois conseguiu misturar bem elementos fantásticos e simbólicos, e oscilar bem entre um tom mais cómico e um tom mais negro;
  • The Earl-King (inspirado na figura folclórica "Erlking"): um conto muito focado na relação entre sexualidade e violência, já explorada também nalguns contos anteriores; apesar de não ser dos mais marcantes gostei particularmente do desfecho;
  • The snow child (inspirado no conto com o mesmo nome): o conto mais pequenino do livro, com apenas uma folha; apesar de curto consegue ser um conto intenso, condensando muitas das temáticas dos contos anteriores;
  • The lady of the house of love (inspirado nas histórias de vampiros da Roménia e a peça de rádio "Vampirella"): outro dos meus contos preferidos; aqui é a nossa heroína, uma vampira, que é o "monstro" e há claramente uma reversão de papéis que tornou mais interessante a exploração das temáticas; um conto muito marcado por decadência e corrupção;
  • The werewolfThe company of wolves e Wolf-Alice (inspirados no conto "O capuchinho vermelho"): curiosamente, alguns dos contos mais famosos da escritora foram os que menos me impressionaram (The company of wolves tem uma adaptação cinematográfica também famosa);

Concluindo, apesar de não ter adorado todos os contos, fiquei com vontade de ler mais obras da escritora. Recomendo para quem gosta de narrativas com uma forte perspectiva feminista e de realismo mágico. 🌟🌟🌟



Mariana Enriquez é uma escritora contemporânea da Argentina que me despertou a atenção pelas suas comparações a Shirley Jackson, uma escritora que aprecio bastante.
No Natal de 2021, acabei por receber este seu livro e achei, na altura, que, apesar de ser provavelmente um livro um pouco negro demais para um início de ano, nada como começar 2022 com a descoberta de um novo autor. E a experiência revelou-se positiva!
As coisas que perdemos no fogo é uma obra que reúne 12 contos desconcertantes com cerca de 15 páginas cada. São narrativas sinistras e algo grotescas que inquietam mais pela forma como a escritora encontra o macabro e o terror em situações sérias e familiares do quotidiano da Argentina, tais como, na pobreza, violência, droga, prostituição, corrupção, etc...
São notórias as influências clássicas de Poe, Stephen King, irmãs Bronte, entre outras, mas a autora consegue adaptá-las a um mundo e problemáticas mais actuais e tornar as histórias suas com uma voz muito própria. Os contos são intensos e atmosféricos, de leitura acessível e viciante, que perturbam não só pelas imagens sombrias que evocam mas também pelas críticas sociais e reflexões que se escondem nas entrelinhas.
Recomendo sobretudo o O rapaz sujo (foca-se na pobreza extrema de um bairro e a indiferença de uma mulher), A casa da aldeia (conto casa abandonada) e Sob a água negra (debruça-se sobre corrupção e poluição de uma favela, com toques lovecraftianos).
Talvez o ponto mais negativo do livro seja que a maioria dos contos acaba com um final em aberto, final este que em alguns casos me pareceu adequado mas que noutros me deixou insatisfeita.
Um livro forte que daria uma discussão interessante num clube de leitura e uma autora a repetir! É importante referir que a escritora não poupa nas descrições dos pormenores mais grotescos logo nao será  um livro para todos. Não é subtil como Shirley Jackson. 🌟🌟🌟🌟



E vocês? Já leram algum destes livros?