
Hoje trago mais uma opinião perdida de um clássico espanhol que li em 2021. Na altura, escrevi a minha opinião no meu caderno de leituras mas acabei por nunca a partilhar online (não me lembro porquê). Foi uma leitura que me marcou por me ter surpreendido e por ter sido o primeiro livro que li em castelhano.
Nada foi escrito em 1944, quando a autora tinha apenas 23 anos, e foi o vencedor da 1ª edição do prémio Nadal, sendo considerada uma das obras espanholas mais importantes do século XX. Decorre no pós-guerra, um ano depois do fim da Guerra Civil espanhola, e a protagonista é Andreia, uma orfã de 18 anos que chega a Barcelona para entrar na universidade. Na cidade ela vai alojar-se na casa da sua família, que se situa na Rua Aribau, com a qual ela teve pouco contacto ao crescer. Chega cheia de ilusões, expectativas e sonhos juvenis que logo vão ser defraudados pela penosa realidade, muito marcada pela decadência moral e económica causada pela guerra. Ao longo do livro, Andreia narra na 1ª pessoa o ano que passa em Barcelona, junto desta estranha família.
Este é considerado um livro existencialista mas foi uma leitura mais envolvente e acessível do que esperava. É um livro muito intimista e introspectivo sendo, sobretudo, um livro de sensações e não de acontecimentos.
Melancólico e intenso, é aparentemente vago e "cheio de nada" mas tem um encanto muito próprio. Para tal, contribui muito a escrita elegante e madura da autora.
Adorei o retrato da casa de Aribau e das personagens grotescas que a habitam. A casa é uma sombra do seu esplendor passado; um local escuro, sujo e caótico, com uma atmosfera claustrofóbica e sufocante. A sua família - avó, tia Angústias, tios Roman e Juan - são pessoas lúgubres, seres terríveis, magnéticos e misteriosos. Graças à guerra, eles tornaram-se em seres atormentados, rostos escuros que passam fome e vivem na miséria.
De facto, há uma preocupação em mostrar que estes são um reflexo da pobreza, violência e destroço moral causado pela Guerra. Para tal, a escritora estabelece também um bom contraste entre a burguesia decadente ("perdedores") e a classe alta ("vencedores"), representada sobretudo pela amiga Ema.
Carmen Laforet retrata também uma jornada de auto-conhecimento de uma jovem que está a entrar na vida adulta e que não quer perder a sua ânsia de viver, apesar da solidão e falta de esperança que a perseguem continuamente.
Concluindo, este foi uma leitura peculiar que me agradou bastante. A sua atmosfera familiar opressiva lembrou-me imenso os livros "O Monte dos Vendavais" e "Sempre vivemos no castelo", apesar de ser bem diferente em termos de enredo. Acho que quem gostou dessas obras, é capaz de gostar também desta obra mais moderna.
E vocês? Já leram este livro?



