«A Dama das Camélias» & «Madame Bovary»

sábado, 18 de março de 2023

Estou de volta com mais algumas "opiniões perdidas". Desta vez, trago a opinião de dois livros clássicos franceses que li há alguns anos atrás. 



Este clássico francês foi publicado, pela primeira vez, em 1858 e eu li-o há cerca de 5 anos atrás.
Conta a história de um romance complicado entre Marguerite, uma famosa cortesã de luxo, e Armand, um jovem estudante de Direito com escassos recursos financeiros. Tem por base uma história real, sendo uma obra com um forte cunho autobiográfico visto que o próprio Alexandre Dumas filho teve um caso com uma cortesã que não acabou muito bem devido a problemas financeiros.
Esta é uma obra muito famosa que já foi adaptada muitas vezes para o cinema (ex: Moulin Rouge). e que inspirou também a criação da ópera La Traviata de Verdi.
Esta foi a minha primeira experiência com uma obra do filho e revelou-se positiva. O livro é curtinho, com cerca de 200 páginas, e foi uma leitura muito fluida e bastante acessível. Também ajuda o facto da escrita do autor ser poética mas, ao mesmo tempo, simples e directa.
O livro foca-se essencialmente num romance e, apesar de eu não ser uma grande fã de livros românticos e histórias melosas, acabei por gostar da relação que foi retratada nesta história. É verdade que é um romance com um sentimentalismo exacerbado mas, mesmo assim, consegue soar bastante autêntico por estar assente em problemas reais. De facto, contratempos realísticos, tais como, dificuldades financeiras, oposição da família e desaprovação da sociedade, acabam mesmo por ter um impacto neste relacionamento. Gostei também muito de como os dois elementos do romance encaram o relacionamento de forma diferente. Armand é muito mais emotivo e passional enquanto que a Marguerite é muito mais pragmática e "terra a terra".
O livro funciona também como uma crítica à sociedade francesa da época, evidenciando a sua hipocrisia, oportunismo e moralidade oca. Há também um bom retrato da opulência dos ricos e da decadência dos pobres. Além disso, retrata bem a descriminação que as cortesãs sofriam e, que no fundo, ainda sofrem. Logo no início do livro, o autor diz que não quer que o livro funcione como uma apologia da prostituição e do vício mas quer chamar a atenção para as dificuldades que as cortesãs enfrentavam e de quão fácil era para os outros julgar estas mulheres. De facto, um homem que tivesse um relacionamento com uma cortesã era bem visto pela sociedade mas a mulher em si era julgada e descriminada. Há realmente uma grande preocupação do escritor em humanizar as cortesãs.
Outro ponto forte do livro é o seu estilo narrativo - temos aqui uma história dentro de uma história. Começamos o livro com a informação de que Marguerite está morta. Morreu, deixando muitas dívidas, e começamos então com a descrição de um leilão dos bens da sua antiga casa para cobrir estas dívidas. O nosso narrador, que é basicamente o escritor em si, vai a esse leilão e compra um livro que tem no seu interior uma dedicatória do Armand. A dedicatória impressiona de tal forma o narrador que este quer conhecer o Armand e saber mais sobre o seu relacionamento. É então o Armand que lhe conta depois a história do amor do casal. Acabamos assim por ter duas linhas temporais e eu gostei muito deste estilo de narração.
Concluindo, esta foi uma leitura bastante agradável que, apesar de não ter uma história muito muito original para os dias de hoje, foi importante na sua época. Existem vários momentos tocantes ao longo do livro e conquistou-me pela escrita, críticas e retrato das cortesãs da época. Recomendo especialmente para quem não costuma ler clássicos. É uma leitura acessível para quem se quer iniciar neste tipo de livros. 🌟🌟🌟🌟



Este foi, provavelmente, o primeiro clássico francês que li, há cerca de 7, 8 anos atrás.
A nossa protagonista é Emma, uma jovem nascida no seio de uma família da pequena burguesia, que foi criada no campo e aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, acaba por se casar com Charles, um médico de província tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao casamento, a que Emma se sente presa, e busca então no adultério uma forma de encontrar a felicidade e a liberdade. Revoltada com a sua vida, Emma perseguirá os seus sonhos, com consequências trágicas.
Este livro foi publicado em 1856 , demorou cerca de 5 anos até estar pronto(!) e é considerado o primeiro clássico da literatura realista. Após a sua publicação gerou um forte impacto e Flaubert chegou a ser julgado por imoralidade. Assim, podem deduzir que o livro aborda temáticas sensíveis para a época, tais como, adultério, crítica à burguesia e ao clero.
Para mim, esta não foi uma leitura muito fluida e rápida de se ler. O autor recorre muito à descrição de locais e pessoas, tendo alguma tendência para divagar em certos momentos. Esta riqueza dos detalhes acaba por conferir um ritmo lento e, por vezes entediante, à leitura. De facto, não conectei muito com o estilo de escrita do autor mas, mesmo assim, apreciei a leitura por causa da história em si e da mensagem que transmite.
O livro apresenta um enredo simples, realista e com personagens humanamente imperfeitas, cheias de defeitos e falhas de carácter. A pior de todas é Emma, a personagem principal, que é fútil, egoísta e uma eterna insatisfeita. É muito fácil odiá-la (principalmente pelo modo como ela trata o marido) mas, por vezes, senti alguma certa empatia por ela pois vive presa a uma vida medíocre, de certo modo imposta pela sociedade, e entra facilmente em depressão. Realmente, é visível que uma das preocupações de Flaubert era retratar de forma verdadeira a sociedade da época, principalmente as suas partes menos positivas. A própria personagem da Madame Bovary funciona como uma crítica ao movimento romântico.
Resumindo, gostei do livro essencialmente por ser uma história realista e que ainda se aplica aos dias de hoje. Ainda há pessoas que estão sempre insatisfeitas com o rumo da sua vida e que a desperdiçam com fantasias ou usam o consumo desenfreado como terapia.
É um clássico que pretendo reler no futuro mas sinto que talvez Flaubert não seja para mim. 🌟🌟🌟




E vocês? Já leram algum destes livros?