Neste novo ano, começo a minha escrita neste cantinho com a opinião da minha última leitura de 2022 - Noites brancas de Dostoievski, bem como de uma das suas adaptações mais famosas - o clássico italiano de 1957, Le notti bianche.
Publicado em 1848, Noites brancas narra a história de um homem solitário que, durante uma das suas deambulações habituais pela cidade, pára para ajudar e tentar consolar uma jovem mulher que se encontra a chorar. Ao longo das noites seguintes, vamos conhecer os motivos de tristeza da jovem Nastenka bem como as angústias e arrependimentos do narrador, do qual não sabemos o nome. Sabemos apenas que é um homem tímido e sonhador, que sente que desperdiçou a sua vida a imaginar e a não agir. Observamos também o impacto deste encontro inesperado na vida e sentimentos de ambas as personagens. Estas conversas intímas decorrem durante as conhecidas noites brancas de São Petersburgo, quando o entardecer é tão longo que a noite se confunde com o dia.
É um livro curto, com menos de 100 páginas, de fácil leitura e com uma escrita delicada e lírica, mas acessível.
Confesso que, até agora, esta foi a obra que menos me arrebatou do escritor, talvez devido à minha falta de inclinação para este género mais romântico, mas mesmo assim foi uma leitura prazeirosa. É fácil simpatizarmos com as suas personagens e identificarmo-nos com algumas das suas inquietações. 🌟🌟🌟
A adaptação que vi foi a de 1957 realizada pelo italiano Luchino Visconti e que conta com as interpretações de Marcello Mastroianni, Maria Schell e Jean Marais. Na época, venceu o prémio de Melhor Realizador e Melhor Filme no Festival de Cinema de Veneza. O enredo é bastante semelhante ao do livro, mas a acção decorre em Itália durante os anos 50.
Quando descobri que esta novela tinha sido adaptada por este realizador, soube logo que tinha de a ver. Já tinha visto antes 3 filmes dele - O Leopardo, Sentimento e Obsessão - e achei que o estilo dele seria perfeito para esta história. E não me enganei! Foi uma adaptação que realmente me conquistou e acabei mesmo por ficar mais encantada até com o filme do que o livro.
Em termos de enredo, o filme é até bastante fiel à história do livro, repetindo até algumas citações deste. Também achei que captou bem a atmosfera melancólica e romântica desta história de amor e dor e as interpretações com uma tendência mais naturalista e melodramática podem parecer à partida um pouco exageradas mas adequaram-se perfeitamente ao espírito apaixonado da obra original.
Maria Schell está encantadora enquanto Natalia, conseguindo transmitir com sucesso a inocência e naturalidade da personagem. O nosso narrador sem nome aqui chama-se Mario e a sua personalidade não é totalmente fiel à do livro. É à mesma um sonhador, que gosta de deambular e cuja vida é, no fundo, monótona e repetitiva mas achei-o menos patético que o do livro, uma alteração que apreciei bastante. De facto, gostei de ambas as interpretações e a química entre os dois actores é bastante credível.
Algo que me cativou bastante no filme foi o seu aspecto visual e realização. A fotografia a preto e branco e a sua iluminação conferem um tom onírico ao filme que combina perfeitamente com esta história romântica. Todo o filme foi filmado em estúdio mas os cenários construídos são um plano de fundo ideal para esta história e funcionam quase como mais uma personagem, ajudando a tornar a história mais imersiva e íntima.






