«Parasite», «A Herdade» e «The Farewell»

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Hoje trago a opinião de mais algumas estreias do ano e, desta vez, venho falar de 3 filmes de língua não inglesa. Parasite, no original Gisaengchung, é um filme coreano que estreou nas salas de cinema portuguesas em Setembro. A Herdade é uma produção nacional que estreou no mesmo mês e The farewell é uma produção chinesa que vai estrear em Portugal em Janeiro de 2020.

realizado por  BONG JOON HO   protagonizado por  KANG-HO SONG, SUN-KYUN LEE, YEO-JEONG JO

O filme destaca as desigualdades entre classes sociais, aproveitando a história fictícia, mas realista, de duas famílias muito diferentes: os empobrecidos Ki-taeks, quase todos desempregados, e a rica família do Sr. Park, dono de uma empresa de informática. Quando o filho de Ki-taek usa um certificado falsificado para consegue emprego ensinando inglês à filha de Park, o contato entre as duas famílias leva a uma série de contratempos que não deixam ninguém incólume ...



Parasitas está a ser considerado por muitos o melhor filme de 2019 e promete ser um dos mais fortes candidatos aos Óscares de 2020. Talvez, por isso, tenha partido para a sua visualização com expectativas em alta e tenha saído desiludida no seu final.
Começando pela positiva, senti que o filme possui uma primeira parte extremamente forte. Gostei de acompanhar inicialmente a família à medida que eles, de forma bastante original e desenrascada, se vão infiltrando no seio da outra família. Estava a gostar do humor e do retrato social. Tenho de destacar também a fantástica fotografia, o design de produção e a cuidada realização.
No entanto, a determinado momento do filme surge uma determinada reviravolta, que não vou especificar para evitar spoilers, que acabou por conduzir o filme para um caos narrativo. Parasitas, assim, funciona quase como uma mistura de muitos géneros - comédia, terror e drama social - com um tom bastante inconstante e bizarro.
É, sem dúvida, um filme com uma forte crítical social que confesso que, em vários momentos, me soou cínica e desajustada. Não gostei da ridícula vilanização de uma família e da fraca construção das personagens da outra família. Há críticas mais específicas que tenho, que não posso aprofundar sem revelar demasiado sobre o filme mas, só para concluir, quero realçar que achei o final extremamente hipócrita.
É um filme que explora temáticas, tais como, desigualdades entre classes sociais, pobreza e dinâmicas familiares de uma forma original mas, de certo modo, muito superficial e repleto de violência desnecessária.
Eu percebo que o objectivo era usar o ridículo, simbolismo e personagens quase caricaturizadas para criar uma sátira social com uma mensagem anti-capitalista mas, pessoalmente, não me cativou. Geralmente, gosto dos filmes do realizador e este é um que eu queria e estava à espera de gostar; pretendo dar-lhe uma segunda oportunidade para ver se a minha opinião se altera. 🌟🌟1/2



realizado por  TIAGO GUEDES   protagonizado por  ALBANO JERÓNIMO, SANDRA FALEIRO, MIGUEL BORGES

A saga de uma família, proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo. Uma viagem aos segredos mais profundos desta herdade, num retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, pela revolução de 25 de Abril de 1974 e até aos dias de hoje.



Confesso que não sou uma pessoa que siga com atenção o que se vai produzindo no nosso cinema português, mas A Herdade foi um filme que me interessou logo por se focar numa família ao longo de várias gerações. É um filme longo, com quase 3 horas de duração, mas que valeu muito a pena ver no cinema.
Essencialmente, este é um filme que se encontra dividido em duas partes: uma que decorre nos anos 70, e que culmina pouco tempo depois da Revolução dos Cravos, e outra que decorre nos anos 90, durante os quais os filhos dos nossos protagonistas já são jovens adultos. Tenho a dizer que adorei a primeira parte, que tem um maior teor socio-político, e que a segunda, que se foca muito mais na tragédia familiar, não foi tão marcante. Gostei muito do retrato desse período histórico do nosso país, de acompanhar os efeitos da política do Estado Novo bem como da guerra colonial. Não é, infelizmente, muito comum a cinematografia portuguesa debruçar-se sobre estes temas tão ricos e, como tal, gostei muito de ver um pouco da nossa História reflectida na tela. Gostei também do retrato mais intimista e profundo desta família poderosa e problemática que se vai desintegrando pouco a pouco enquanto que o resto do país parece evoluir.
Aqui seguimos uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, cujo patriarca é João Fernandes. João é um homem rico e poderoso que domina as suas terras quase como se fosse o seu próprio reino. É um bom patrão, que se preocupa em manter o impacto da ditadura longe do seu território e dos que lá vivem, mas enquanto pai e marido é distante, frio e não admite fraquezas, uma consequência da sua própria educação. Albano Jerónimo conseguiu encarnar esta personagem de uma forma excelente, trazendo-lhe muito carisma, complexidade e intensidade. No entanto, quem me surpreendeu mais pela positiva foi Sandra Faleiro, que interpreta a mulher de boas famílias de João. Leonor é uma mulher digna, determinada e independente que sofre, muitas vezes, em silêncio com o que se passa ao seu redor e Sandra Faleiro conseguiu expressar muito através da sua compostura e olhares.
Esteticamente é um filme belíssimo, com os seus vastos campos e horizontes a perder de vista. É, sem dúvida, um filme que pela sua fotografia e temas evoca muito o cinema clássico italiano, nomeadamente "O Leopardo" de Luchino Visconti. Tem um ritmo algo lento, com muitas pausas e silêncios, e demora o seu tempo a desenrolar-se. Como tal, não é certamente um filme para todos. No entanto, para mim, foram raros os momentos em que me senti entediada e sinto que o filme apenas se prolongou um pouco demais em algumas cenas na segunda parte. Apesar de ter gostado das intensas cenas finais, esta parte foi um pouco previsível demais e menos interessante e arrebatadora do que a primeira. Podia ter sido um pouco melhor trabalhada.
Mesmo assim, este é um filme português que eu recomendo! É, acima de tudo, um drama épico lusitano que se debruça sobre a decadência do poder de uma família e dos antigos costumes feudalistas de um país. 🌟🌟🌟1/2


realizado por  LULU WANG   protagonizado por  SHUZHEN ZHAO, AWKWAFINA, X MAYO

Billi, uma norte-americana de origem chinesa, regressa à China ao saber que a sua amada avó sofre de uma doença terminal. Billi luta contra a decisão da família de esconder o diagnóstico da avó enquanto preparam um casamento que reunirá todos por uma última vez.



A Despedida é um filme que já estreou há algum tempo nos EUA e do qual só tinha ouvido críticas positivas. Como tal, era um filme que me despertava a curiosidade e aproveitei a categoria de "filme focado numa família" da maratona #mcinexmas para finalmente o ver. Felizmente, foi um filme que não me desiludiu.
O filme foi escrito e realizado por Lulu Wang. É fortemente inspirado nas suas experiências pessoais com a sua avó e é, na verdade, um filme que acaba por funcionar como uma ode a todas as avós. É um retrato emocional de uma neta que não se quer despedir da sua avó e um filme que balança, com muito sensibilidade e honestidade, momentos tristes e deprimentes com momentos mais bizarros e divertidos.
Explora também importantes diferenças culturais entre os EUA e a China, especialmente no que diz respeito à saúde, família e à morte. A principal questão que o filme coloca - devemos contar a um ente querido que a sua vida está a chegar ao fim quando não há nada que ele possa fazer - é extremamente interessante e provocadora, e foi bem explorada no filme. Gostei de como este se preocupou em mostrar diferentes perspectivas e em mostrar que diferentes pessoas e culturas terão sempre respostas e prioridades divergentes.
É um filme sobre conexão, perda e família, com um visual e realização muito próprios. De destacar também a interpretação de Awkwafina e a química entre ela e a actriz que interpreta a sua avó.
Não é um filme perfeito, pois tem algumas falhas a nível de ritmo, mas é um bonito filme que recomendo muito. Soa tocante e autêntico sem ser demasiado sentimentalista. 🌟🌟🌟🌟



E vocês? 
Já viram algum destes filmes?