Confesso que, apesar de adorar ler clássicos, sinto que me foco muito nas obras britânicas e acabo por não ler tanto outros clássicos europeus. Como tal, quando ouvi falar bem deste clássico espanhol e vi que estava disponível nesta edição fofíssima da Pocket Penguins, não deixei escapar a oportunidade. No início de Novembro, li então esta obra e hoje venho partilhar com vocês a minha opinião favorável.
Los Pazos de Ulloa é uma obra do século XIX da autoria da Condessa Emilia Pardo Bazán, uma escritora aristocrata da Galicia que ficou conhecida por introduzir o naturalismo na literatura espanhola e pela sua preocupação com a defesa dos direitos das mulheres. Era uma mulher culta, uma crítica literária, tradutora, jornalista e uma mulher de grande peso intelectual. Este foi o primeiro livro que li da autora e deixou-me uma boa primeira impressão e vontade de conhecer mais obras dela.Los Pazos de Ulloa é um livro curto, com quase 300 páginas. Conta a história do jovem sacerdote Julián, que vai servir na casa nobre do Marquês Don Pedro Moscoso que se situa na zona rural da Galicia. Ao chegar, o padre fica chocado com o estado de degradação físico da casa e da capela, bem como pelo estado de degradação moral e estilo de vida do Marquês e dos outros habitantes. Ao longo do livro, ele vai tentando modificar aquilo que o rodeia: algumas tentativas são bem sucedidas e outras nem tanto.
Este livro foi um marco dentro do realismo/naturalismo espanhol e realmente são visíveis características de ambos os estilos. Temos um retrato realista da época, com casamentos arranjados, relacionamentos e filhos ilegítimos, e também uma preocupação em evidenciar um regionalismo bem forte e o impacto do local nas pessoas que aí vivem.
A escrita é realmente muito bonita e gostei, sobretudo, das descrições das paisagens e das pessoas que habitavam tanto a Galicia rural como a citadina, que aqui é representada sobretudo através de Santiago de Compostela. Há um claro contraste entre o campo e a cidade, entre o lado mais animal (instinto) e o mais racional das pessoas, não deixando nunca de realçar os aspectos mais negativos de ambos os locais e como esses afectam os seus habitantes. Uma vez que o livro decorre no norte de Espanha, já bem pertinho de Portugal, é inevitável não reconhecermos um pouco do nosso país no ambiente descrito.
Aquilo que mais gostei no livro foi o retrato da decadência da aristocracia rural do final do século XIX, que é visível não só na personagem e situação do Don Pedro Moscoso, mas também noutras famílias com as quais o padre se acaba por cruzar brevemente ao longo da história. Há também uma forte crítica à corrupçao politica, especialmente ao sistema de "caciques" da altura. Apesar de ter achado este tópico muito interessante, uma vez que pouco sabia sobre o assunto, em certos momentos do livro achei que a autora se extendeu um pouco demais nestes pontos.
Confesso também que, em certas alturas, o nosso ingénuo e impressionável narrador - o padre Julián - me irritou um pouco pela sua extrema devocão religiosa. No entanto, gostei de acompanhar a luta deste homem pio e puro para tentar trazer ordem à casa de Ulloa e acabar com alguns dos actos imorais e cruéis que ali são praticados. Ele é um elemento importante nesta colisão entre a natureza selvagem e os costumes culturais e religiosos.
Quanto ao lado mais feminista da autora, este livro não é propriamente a melhor representação. Penso que o livro dela La Tribuna será uma melhor escolha.
Concluindo, esta foi uma leitura bastante imersiva, com personagens marcantes e que me conquistou pelas suas descrições. É um livro que mistura muito bem comédia e tragédia. 🌟🌟🌟1/2
Não leva as 4 estrelas porque achei a segunda metade do livro menos cativante e fluida, talvez devido ao grande foco na parte política. Mesmo assim, foi uma leitura que me surpreendeu e pretendo ler mais obras da escritora. Recomendo-o sobretudo a quem gosta de clássicos naturalistas e das obras de Eça de Queiroz. Se não me engano, não se encontra traduzido em Portugal.



